Por: Odilon de Mattos Filho
Hoje já não há mais dúvidas — como bem explica o professor João Cezar de Castro Rocha — de que o bolsonarismo se consolidou como um movimento político de massas, com viés fascista e forte tendência autoritária.
A base, ou melhor, o motor desse movimento, encontra-se nas igrejas evangélicas — sobretudo entre pentecostais e neopentecostais — além de setores da Igreja Católica, em especial o conservador Movimento Carismático. A chamada “pauta de costumes” foi a principal narrativa responsável por aproximar e unificar esse campo religioso e político.
As igrejas evangélicas somam hoje mais de 130 mil templos espalhados por todo o território nacional e atingem, segundo o IBGE, cerca de 48 milhões de pessoas — o que representa aproximadamente 23% da população brasileira. É razoável afirmar que uma parcela significativa desses fiéis atua como base militante desse movimento, muitas vezes mobilizada por um fenômeno de dissonância cognitiva coletiva.
Sabe-se que, atualmente, setores do pentecostalismo e do neopentecostalismo utilizam a chamada Teologia da Prosperidade como instrumento para a consolidação de uma outra concepção: a Teologia do Domínio, que visa à ocupação de espaços de poder político e institucional. A chamada “bancada da Bíblia”, com cerca de 100 parlamentares, e o governo Bolsonaro corroboram essa análise.
Aliás, o saudoso governador Leonel Brizola já alertava: “Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço; o país retrocederá vergonhosamente e matarão em nome de Deus.”
A força dessas igrejas é imensurável. Reportagem da Revista Fórum informa que a Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo, pretende realizar, na Sexta-feira da Paixão, eventos simultâneos em nove estádios de futebol pelo Brasil. Trata-se de uma demonstração de força com evidente dimensão política e alvo definido: o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores. O evento foi descrito por Renato Cardoso, genro de Macedo, em tom irônico, como uma “grande lata de conservas da família1”, em referência crítica a manifestações culturais que confrontam o conservadorismo.
Segundo o jornalista Zé Barbosa, autor da matéria, a escolha da Sexta-feira da Paixão amplia o impacto emocional do evento, enquanto o discurso em defesa da “família” se conecta diretamente às pautas conservadoras que mobilizam essa base. Ao mesmo tempo, críticas indiretas ao governo transformam o ato em um verdadeiro movimento político de massa, com potencial de influenciar o cenário eleitoral — inclusive em benefício de lideranças como Flávio Bolsonaro.
Esse será, ao que tudo indica, apenas o primeiro de uma série de ataques organizados por setores das igrejas evangélicas alinhados à extrema-direita contra o presidente Lula e seu governo.
Além desse expressivo contingente de “soldados de Deus”, que sustenta a extrema-direita no Brasil nos últimos anos, retorna à cena político-eleitoral a velha e conservadora imprensa brasileira — historicamente vinculada aos interesses das elites econômicas do país.
Sabe-se que a sustentação das políticas alinhadas ao imperialismo internacional só tem sido possível graças a essa retaguarda estratégica, responsável pela difusão massiva de ideias, pela formação de opinião pública e pela neutralização de qualquer reação que possa ameaçar seus interesses. Trata-se, também, de um instrumento importante na desorganização do movimento popular e na despolitização da sociedade.
A atuação dessa mídia e seu modus operandi ficaram evidentes recentemente, em uma matéria veiculada pela GloboNews, de conteúdo claramente manipulador. O episódio já figura como um dos mais graves escândalos jornalísticos da mídia brasileira contemporânea.
No dia 6 de março de 2026, a jornalista Andréia Sadi apresentou, em seu programa, um PowerPoint que remete diretamente ao método utilizado pelo ex-procurador da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol. Na peça, de forma simplista e tendenciosa, foram apresentados supostos envolvidos no escândalo financeiro relacionado ao Banco Master e ao seu proprietário, o banqueiro Daniel Vorcaro.
De maneira premeditada e irresponsável, o material incluiu o presidente Lula, o PT e ministros do governo entre os supostos envolvidos, enquanto nomes efetivamente ligados ao caso — de conhecimento público — foram simplesmente omitidos. A repercussão foi imediata: a matéria foi duramente criticada nas redes sociais e por diversos jornalistas independentes.
O analista Jeferson Miola afirmou que “a Globo retomou a construção de narrativas típicas do período da Lava Jato, utilizando recursos gráficos de forte apelo simbólico para influenciar a opinião pública. Destacou ainda a ausência, na apresentação, de nomes relevantes como Jair Bolsonaro, Ibaneis Rocha, Cláudio Castro, representantes do mercado financeiro e até mesmo a própria Globo, que teria mantido relações com o empresário investigado...2”
No mesmo sentido, o jornalista Florestan Fernandes Jr. avaliou que “a emissora volta a exercer um “jornalismo de resultado”, com o objetivo de tutelar o processo eleitoral. Segundo ele, caso não consiga viabilizar uma candidatura de “terceira via”, como Tarcísio de Freitas ou Ratinho Júnior, a Globo pode voltar a flertar com o bolsonarismo3”.
Diante da repercussão negativa, a jornalista apresentou um pedido de desculpas que, longe de reparar os danos, agravou ainda mais a situação. A retratação foi considerada insuficiente e evasiva e também recebeu inúmeras críticas.
O jornalista Bernardo Cotrim do ICL, escreveu que “...um pedido de desculpas é uma expressão sincera de arrependimento e tentativa de mitigar o dano produzido, assumindo a responsabilidade pelo ato, mesmo que não exista a intenção; já uma errata é a correção de uma obra, assinalando cada um dos erros cometidos e apontando a forma correta..O texto apresentado no Estúdio i não é nem uma coisa, nem outra. O parágrafo claudicante não estabelece de quem foi a responsabilidade pela exibição de algo tão aberrante, não cita os nomes de quem devia figurar na “arte”, não informa quem apareceu na peça por engano. Ficou explícito que a “autocrítica” capenga visa única e exclusivamente minimizar o dano causado à imagem da própria emissora. Uma ação tardia de “vacina”, tão patética quanto desonesta4”.
Diante desse cenário, torna-se evidente a necessidade de uma reação política e institucional firme por parte do governo. Está em curso um processo articulado por setores das elites que visa influenciar o resultado das eleições de 2026.
Parte da burguesia aposta na construção de uma “terceira via”. No entanto, caso essa alternativa não se viabilize, não há dúvidas de que esses setores poderão novamente se alinhar à extrema-direita.
Se a esquerda não retomar o debate ideológico, não fortalecer o diálogo com os movimentos sociais e sindicais e não enfrentar com firmeza a extrema-direita, a reeleição do presidente Lula corre sério risco. O país poderá mergulhar em um novo ciclo de retrocesso político.
O ovo da serpente está prestes a se romper.
1Fonte: https://revistaforum.com.br/brasil/familia-ao-pe-da-cruz-edir-marcedo-fara-ato-contra-lula-e-alugou-9-estadios-de-futebol-pra-isso/
4Fonte: https://iclnoticias.com.br/entre-a-errata-e-o-pedido-de-desculpas-a-globo-escolheu-o-caminho-do-meio/
ttps://revistaforum.com.br/brasil/familia-ao-pe-da-cruz-edir-marcedo-fara-ato-contra-lula-e-alugou-9-estadios-de-futebol-pra-isso/








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