Respeitem Lula!

"A classe pobre é pobre. A classe média é média. A classe alta é mídia". Murílio Leal Antes que algum apressado diga que o título deste texto é plágio do artigo escrito por Ricardo Noblat (...)

A farsa do "Choque de Gestão" de Aécio "Never"

“Veja” abaixo a farsa que foi o famoso “Choque de Gestão” na administração do ex-governador Aécio “Never" (...)

A MAIS TRADICIONAL E IMPORTANTE FACULDADE DE DIREITO DO BRASIL HOMENAGEIA O MINISTRO LEWANDWSKI

"O Ministro do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski recebeu um “voto de solidariedade” da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo) pela “dedicação, independência e imparcialidade” em sua atuação na corte. (...)

NOVA CLASSE "C"

Tendo em vista a importância do tema, reproduzimos post do sitio "Conversa Afiada" que reproduz trecho da entrevista que Renato Meirelles deu a Kennedy Alencar na RedeTV, que trata da impressionante expansão da classe média brasileira. (...)

terça-feira, 6 de outubro de 2026

NÃO PODE HAVER DILEMA ENTRE AS REDES E AS RUAS

 


Por Odilon de Mattos Filho

Muitos brasileiros, especialmente aqueles que militam no campo da esquerda, vivem um momento de apreensão e descompasso diante das eleições de 2026. O primeiro grande golpe veio com a surpreendente vitória do principal candidato de oposição ao presidente Lula.

Muitos — inclusive este escriba — acreditavam que o filho de Bolsonaro não seria páreo para o presidente Lula, considerando seu passado político e sua vida pregressa, com um enorme teto de vidro. Ledo engano!

Não obstante essa nossa posição, sempre procuramos fazer, neste espaço, uma análise mais crítica sobre o governo Lula 3 e, principalmente, sobre o descaso de parte da esquerda com a força do movimento bolsonarista, que encontrou nas igrejas evangélicas e também em setores da Igreja Católica uma de suas bases eleitorais mais fortes e fiéis.

Aliado a isso, a extrema-direita percebeu muito antes da esquerda o enorme potencial das plataformas digitais como poderosas ferramentas políticas, eleitorais e de comunicação de massa. A extrema-direita é hoje um fenômeno das redes sociais.

Em contrapartida, a esquerda brasileira parece continuar presa aos tempos do mimeógrafo e da tipografia — numa espécie de Segunda Revolução Industrial política e comunicacional.

Enquanto abnegados militantes de esquerda continuam cumprindo a importante missão de distribuir panfletos, vender jornais e conversar com a população nos pontos de ônibus, nas praças e nos poucos portões de fábrica que ainda existem, a extrema-direita, com um simples clique, consegue, em poucos segundos, alcançar milhões de pessoas. É um abismo colossal de alcance, velocidade e eficiência comunicacional.

Evidentemente, não se trata de desprezar a militância de rua. Muito pelo contrário. A presença física, a organização popular, os sindicatos, os movimentos sociais, as reuniões comunitárias, as praças e os locais de trabalho continuam sendo fundamentais para qualquer projeto político que pretenda transformar a sociedade. O problema é imaginar que podemos disputar a consciência de milhões de brasileiros utilizando apenas ferramentas concebidas para uma realidade que já não existe.

Por sinal, neste contexto, a jovem Ana Elisa, deputada federal do PT eleita por Minas Gerais com mais de 500 mil votos, mandou um recado direto para a campanha de Lula e para a esquerda brasileira:

“Eu gostaria de deixar realmente um apelo para toda a esquerda. É o momento de nós deixarmos realmente a ignorância de lado, calçarmos a sandália da humildade e entendermos que, com a rede social, a gente precisa, sim, aprender (...). A vida está sendo pautada na tela do telefone e não na rua.” A declaração merece ser ouvida com atenção.

Aliás, não é novidade para ninguém o descaso — e, em alguns momentos, a incompetência — dos governos petistas na área da comunicação. Imagine se o governo soubesse comunicar ao povo, de maneira inteligente, simples e eficaz, todas as conquistas e avanços obtidos para a população mais vulnerável e para a classe trabalhadora brasileira.

Certamente, a extrema-direita teria muito mais dificuldade para construir a narrativa de que tudo está errado e de que nenhum avanço aconteceu.

Não se trata, portanto, apenas de fazer propaganda de governo. Trata-se de disputar narrativas, apresentar fatos, dialogar com a população e mostrar, de forma compreensível, quem ganha e quem perde com cada projeto político.

Uma pesquisa do DataSenado já havia demonstrado, há anos, a crescente influência das redes sociais como fonte de informação para o eleitor. Nas eleições de 2018, quase metade dos entrevistados — 45% — afirmou ter decidido o voto levando em consideração informações vistas em alguma rede social. Entre as 2,4 mil pessoas entrevistadas, 79% disseram utilizar as redes sociais para se informar.

Aquela pesquisa já mostrava uma transformação profunda na maneira como o eleitor brasileiro se informa e forma sua opinião. Agora, em 2026, a força dessas plataformas é ainda maior.

E aqui está um dos grandes problemas da esquerda: enquanto setores da extrema-direita compreenderam rapidamente o funcionamento dos algoritmos, aprenderam a produzir conteúdos curtos, emocionais e facilmente compartilháveis e construíram verdadeiras redes de comunicação política, boa parte da esquerda ainda discute se deve ou não entrar nesse terreno.

A especialista em Marketing Político Martha Romano resumiu bem esse desafio ao afirmar: “Tem um pessoal da extrema-direita que é muito criativo. Eles estudam como as plataformas funcionam e usam isso dentro do discurso deles. O que a gente tem que fazer é a mesma coisa: dominar as plataformas, testar formatos e ousar.1”

A questão, portanto, não é simplesmente estar nas redes sociais. É saber utilizá-las. A eficácia dessa poderosa ferramenta, inclusive para o campo progressista, pode ser observada em episódios recentes.

A discussão sobre a escala 6×1, por exemplo, demonstrou que uma pauta historicamente defendida pelos movimentos sociais e pela esquerda pode alcançar enorme repercussão nas plataformas digitais quando consegue dialogar diretamente com as preocupações concretas da classe trabalhadora.

O mesmo pode ser observado em outras pautas, como a defesa da democracia, a reação às medidas contra Bolsonaro e o debate sobre a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. Quando a esquerda consegue transformar suas pautas em mensagens simples, compreensíveis e emocionalmente conectadas com a vida cotidiana das pessoas, o alcance pode ultrapassar — e muito — os limites de sua militância tradicional.  É preciso, entretanto, reconhecer também o outro lado dessa disputa.

A historiadora e youtuber Laura Sabino, em entrevista sobre a utilização das redes sociais, chamou atenção para o papel das grandes empresas de tecnologia e para a relação entre dinheiro, algoritmos e disputa política. Segundo ela, "as redes sociais favorecem respostas rápidas para problemas complexos e podem beneficiar aqueles que possuem mais recursos para impulsionar suas mensagens. Essa dimensão econômica não pode ser ignorada. A esquerda não precisa se transformar na extrema-direita para vencer a extrema-direita. Precisa, sim, compreender que conteúdo verdadeiro também precisa ser interessante; política também precisa saber contar histórias; boas ideias também precisam aprender a disputar atenção2".

Não temos a pretensão de colocar as plataformas digitais como uma espécie de panaceia capaz de resolver todos os problemas da esquerda brasileira. Seria um erro monumental. Temos consciência de que os ensinamentos do velho Karl Marx continuam tão presentes quanto as redes sociais. O pano de fundo de tudo isso continua sendo a luta de classes. O que mudou foram as ferramentas utilizadas para disputar a consciência da sociedade. A classe trabalhadora de hoje continua enfrentando exploração, desigualdade, precarização do trabalho e concentração de renda. Mas agora também vive, trabalha, conversa, se informa e forma sua opinião dentro de um universo digital dominado por algoritmos e plataformas privadas.

É nesse novo território que a esquerda precisa estar presente. E estar presente não significa abandonar a rua. Ao contrário: precisamos construir uma verdadeira simbiose entre a militância de rua e a militância digital. O panfleto pode continuar existindo, mas precisa dialogar com o QR Code. O discurso na praça ou no Portão da fábrica pode continuar existindo, mas pode virar um vídeo de 30 segundos capaz de chegar a milhares de pessoas. Precisamos, enfim, abandonar a falsa escolha entre a rua e a tela. A esquerda brasileira não pode continuar utilizando as ferramentas do século passado para disputar a política do século XXI.

Ainda há tempo para virar esse jogo, mas é preciso acordar e ter coragem...Força na luta, companheirada!










1-Fonte: https://fpabramo.org.br/como-a-esquerda-avanca-na-disputa-das-redes/

2Fonte:https://www.brasildefato.com.br/podcast/visoespopulares/2026/06/10/o-algoritmo-e-obscuro-mas-ha-espaco-para-a-esquerda-diz-laura-sabino/




  


domingo, 12 de julho de 2026

A INFLUÊNCIA DAS IGREJAS EVANGÉLICAS NA IDENTIDADE DA SELEÇÃO BRASILEIRA

 

Por Odilon de Mattos Filho

Sabe-se que no Brasil, os templos Evangélicos, particularmente os pentecostais e neopentecostais, deram um salto de crescimento nos últimos 30 anos e hoje, segundo o IBGE, somam 32% da população.

A força das Igrejas Evangélicas como moldadores da personalidade de seus fiéis e a disseminação de suas Doutrinas/Teologias ultrapassam fronteiras e influenciam outras Nações. No livro “Os Demônios Descem do Norte”, o autor Délcio Monteiro de Lima mostra um retrato de grande parte da população estadunidense que serve como parâmetro para entendermos o fenômeno religioso/político que acontece hoje no Brasil.

E realmente esse retrato fica evidente quando se analisa o atual comportamento social e político do brasileiro e a "a disputa ideológica — e não mera polarização — entre os campos progressista e ultraconservador.

Neste contexto, sabe-se que a extrema-direita utiliza a pauta de costumes como instrumento de mobilização e cooptação de seus apoiadores e seu discurso mais do que ir ao encontro do que prega a Doutrina das Igrejas Evangélicas, encontra ampla receptividade em parte dessas igrejas e nos lares dos fiéis, resultando no crescimento extraordinário da extrema-direita do país.

Em tempos de Copa do Mundo de Futebol, sempre aparecem as famosas teorias da conspiração e nessa Copa não foi diferente, talvez não se trata dessa teoria, mas sim de um debate que procura analisar a vergonha do futebol brasileiro e nessa análise apareceu a tese da influência das Igrejas evangélicas na seleção brasileira de futebol.

O debate surgiu no tradicional jornal Inglês, The Times. À primeira vista parece uma discussão sem qualquer sentido e que beira a intolerância religiosa, mas que na verdade,  se aprofundarmos nas discussões pode ser considerado mais um elemento na tentativa de se explicar o fracasso da nossa seleção.

Não se trata de afirmar que a religião dos atletas seja, por si só, responsável pelo declínio técnico da seleção e que houve a capitulação do futebol, o que está proposto é a discussão de determinadas mudanças culturais decorrentes da expansão do evangelicalismo podem ter influenciado aspectos da identidade coletiva historicamente associada ao futebol brasileiro. Aliás, o próprio jornal destaca na matéria, que as mudanças no futebol brasileiro refletem transformações culturais mais amplas, e não apenas religiosas. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam fatores como a globalização do esporte, a profissionalização precoce dos atletas, a influência do futebol europeu e mudanças no comportamento da sociedade brasileira.

Segundo dados do referido jornal esse aumento dos números de evangélicos no Brasil refletiu, também, na seleção brasileira. De acordo com o periódico, pelo menos 20 dos 26 que foram convocados professam a fé evangélica, e no nosso entender essa mesma proporção ou quase isso, se aplica no futebol profissional do país.

As redes sociais já estão debatendo o tema e se levarmos em consideração o autor do livro “Os Demônios Descem do Norte” podemos afirmar que um dos memes que circula nas redes sociais faz total sentido. Diz o meme: “Reze como um gringo, jogue como um gringo”, fazendo alusão de que o cristianismo evangélico contemporâneo seria uma influência importada dos Estados Unidos, país sem tradição no futebol da elite mundial.

E realmente há uma grande influência dos evangélicos no futebol brasileiro, não por acaso, surgiu no Brasil em 1984, capitaneado pelo goleiro do Atlético Mineiro, João Leite, o Movimento denominado “Atletas de Cristo”.

Aliás, esse Movimento cresceu de forma exponencial e isso é muito visível quando observamos as manifestações públicas dos jogadores de religiosidade antes e depois das partidas, como orações coletivas, declarações de agradecimento a Deus e até as justificativas pelas derrotas não ficam apenas na análise do jogo, sempre vem acompanhadas do que alguns filósofos da argumentação denominam de 'falácia do argumento divinizado', isto é, quando uma decisão ou acontecimento é justificado exclusivamente pela vontade divina, tornando a discussão imune a qualquer contestação racional.

A propósito, a entrevista concedida por Endrick após a derrota para a Noruega e justificando o gol perdido, corrobora a “Falácia do Argumento Divinizado”. Disse o atacante: “Foi um momento em que eu poderia ter feito melhor. Não consegui, mas agradeço a Deus pela oportunidade1”

Neste contexto, vale ressaltar também que nessas entrevistas e até na vida pessoal desses “Atletas em Cristo”, há uma presença forte da Teologia da Prosperidade das Igrejas Neopentecostais que, como se sabe, foca no individualismo ao enfatizar experiências místicas exclusivamente individuais e vitórias pessoais imediatas e nunca no coletivo.

Aliás, nesse sentido o Padre Jesuíta, Bruno Franquelli, trouxe essa discussão à baila com uma argumentação bem fundamentada e que nos leva a refletir sobre esse tema: Diz o Padre: “..Depois da eliminação do Brasil, o jornal britânico, The Times publicou um debate que está crescendo. Será que a mudança religiosa entre os jogadores também mudou a identidade da nossa seleção? Essa pergunta me lembrou imediatamente de Max Weber, este sociólogo que mostrou que o protestantismo ajudou a construir uma ética baseada na responsabilidade individual, na disciplina e na relação direta entre o indivíduo e Deus. Essa visão fortalece a autonomia pessoal e os méritos individuais...Essa é a minha hipótese, que essa é uma mudança cultural que também está chegando no futebol. Quando o valor central de uma cultura passa para um indivíduo, isso pode influenciar na maneira como o grupo trabalha, coopera e se sacrifica pelo coletivo. O futebol brasileiro sempre foi reconhecido pelo jogo coletivo...É claro que uma religião não pode explicar tudo, nem todo o desempenho da seleção. Mas como ensinou Max Weber, a religião molda valores, e valores moldam comportamentos até mesmo no campo de futebol...Talvez seja preciso olhar para a cultura que está formando essa geração de jogadores2”

Nesse mesmo sentido, o historiador brasileiro André Pagliarini, da Universidade Estadual da Louisiana, que foi ouvido pelo jornal The Times, disse “que o crescimento do neopentecostalismo ajudou a impulsionar mudanças estruturais na sociedade brasileira que também chegaram ao futebol….Segundo ele, as grandes seleções brasileiras surgiram em uma cultura que valorizava o coletivo acima do indivíduo, característica que estaria sendo enfraquecida paralelamente ao crescimento de correntes religiosas mais voltadas para a experiência individual...3”.

Por fim, citamos o jornalista da República Dominicana Elvin Calvino que , escreveu: “O futebol brasileiro tinha uma identidade enraizada na exuberância, festividade e colorido de uma cultura nascida do sincretismo entre o catolicismo e tradições religiosas de origem africana. Quando o Brasil dominava a Copa do Mundo, os jogadores chegavam aos estádios cantando samba e tocando tambores afro-brasileiros. Sua forma de jogar em campo era simplesmente uma extensão da celebração...Hoje, no entanto, os jogadores do Brasil são em sua maioria evangélicos. E o evangelicalismo—dadas suas raízes dispensacionalistas e escatologia rígida—rejeita todas as formas de sincretismo e diversidade. Em outras palavras, põe fim ao “futebol como celebração...Agora, tocar tambores e invocar os santos do sincretismo afro-brasileiro é visto como obra do diabo; é desaprovado. Eles se tornaram sombrios, regimentados e previsíveis—tanto em suas vidas pessoais quanto em campo4”.

Dito tudo isso, o fato é que a Seleção brasileira fracassou mais uma vez e vamos completar na próxima Copa do Mundo, vinte e oito anos sem conquistar esse Torneio. As análises sobre essas derrotas são muitas, passando pela abjeta politicagem da CBF, ciclos mal feitos, globalização do esporte, profissionalização precoce dos atletas, mudanças no comportamento da sociedade brasileirae por que não, esse crescimento do Movimento Evangélico no meio dos “Atletas de Cristo”. Mas independentemente de concordarmos ou não com essa última hipótese, o debate suscitado por jornalistas, historiadores e estudiosos revela que o futebol brasileiro talvez esteja refletindo mudanças culturais profundas vividas pela sociedade. Ignorar essa discussão seria abrir mão de compreender um dos aspectos da transformação da identidade do futebol  brasileiro. 



























1Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/jornal-britanico-associa-avanco-evangelico-ao-declinio-do-futebol-brasileiro/
2Fonte: https://www.instagram.com/reel/DaqtfgXNZ9m/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
3Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/jornal-britanico-associa-avanco-evangelico-ao-declinio-do-futebol-brasileiro/
4Fonte: https://radiorirbrasil.com.br/2026/07/12/jornal-diz-sobre-a-selecao-brasileira/

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A FIFA E A COPA DO MUNDO FORAM SUBJUGADAS PELO GOVERNO TRUMP

 

Por Odilon de Mattos Filho
É sabido por grande parte da população mundial que o futebol internacional é comandado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), fundada em 1904 e sediada em Zurique, na Suíça. A entidade regulamenta e supervisiona o futebol, o futsal e o futebol de areia em todo o mundo, além de ser responsável pela organização do maior evento esportivo do planeta: a Copa do Mundo. Trata-se de um torneio que deveria representar um momento de congraçamento entre os povos, mas que, no atual "padrão FIFA", vem se transformando cada vez mais em um grande negócio marcado pela exclusão social, por interesses econômicos e por conflitos políticos.

O mundo acompanha atualmente a 23ª edição da Copa do Mundo da FIFA. A competição é organizada conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá, tendo os Estados Unidos como sede principal. A grande diferença desta edição em relação às anteriores, entretanto, não está apenas no fato de possuir três países-sede, mas, sobretudo, na postura da FIFA, que, na minha avaliação, tem demonstrado crescente alinhamento aos interesses políticos do presidente Donald Trump.

Essa percepção ganhou força com a criação do chamado "Prêmio da Paz da FIFA", distinção concedida pela primeira vez ao presidente norte-americano. Segundo a justificativa apresentada pela entidade máxima do futebol mundial, a homenagem reconheceria as iniciativas diplomáticas de Trump voltadas à promoção da paz e da cooperação internacional.

Naturalmente, a premiação gerou controvérsias e levantou questionamentos acerca da crescente proximidade entre a FIFA e o governo dos Estados Unidos, além de suscitar dúvidas sobre a credibilidade da competição, preocupação que, ao longo do torneio, foi sendo reforçada por novos acontecimentos.

Como muitos acompanharam, esta Copa do Mundo, especialmente em sua principal sede, os Estados Unidos, ficou marcada por inúmeros episódios envolvendo delegações, atletas, árbitros e torcedores de países participantes, diante da omissão e da conivência da FIFA. Entre os casos noticiados estão o tratamento diferenciado dispensado à seleção do Irã e à sua torcida, a violência sofrida pelo árbitro somali Omar Artan, além de seleções submetidas a longos e rigorosos interrogatórios nos aeroportos norte-americanos, entre outros episódios já abordados em texto anterior.

Depois de todos esses acontecimentos, surgiu mais um episódio que, a meu ver, compromete a isonomia esportiva entre as seleções, coloca em xeque a legitimidade da FIFA e da própria competição e certamente vai  entrar para história como a maior vergonha do futebol mundial com a declarada intervenção de um presidente do país-sede na FIFA.

Na partida entre Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina, vencida pelos norte-americanos por 2 X 0, o atacante Folarin Balogun foi expulso com cartão vermelho pelo árbitro brasileiro Raphael Claus. Pelo regulamento da competição, a suspensão para a partida seguinte seria automática.

No entanto, encerrado o jogo, o presidente Donald Trump manifestou-se publicamente contra a expulsão e afirmou ter telefonado ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, solicitando a revisão da punição, por considerá-la injusta. Segundo o próprio Trump, o pedido foi atendido. Em declaração pública, afirmou:  "Sim, eu pedi uma revisão à FIFA. Falei com um homem que é muito respeitado e, por acaso, seu nível de respeito aumentou dez vezes. Fui eu quem os fez fazer isso [mudar a decisão]. Não foi o Biden. O Biden estava dormindo. Obrigado à FIFA por fazer o certo e reverter uma grande injustiça."¹

Ao justificar sua posição, Trump também colocou em dúvida a atuação do árbitro brasileiro, afirmando: "O árbitro é um pouco suspeito, se você verificar seu passado... Eu não quero dizer isso porque não gosto de criar controvérsia, mas ele é muito suspeito. Se você quiser, eu vou te mostrar o passado dele. Ele tomou uma decisão em que ninguém acreditou. Mesmo os adversários disseram: 'Nós tivemos sorte.'"²

Após a decisão da FIFA de rever a punição aplicada ao atleta norte-americano, sucederam-se diversas manifestações públicas de críticas à entidade.

Em nota oficial, a CBF saiu em defesa do árbitro Raphael Claus, afirmando: "A CBF refuta qualquer insinuação que coloque em dúvida a integridade de Raphael Claus. Trata-se de um profissional exemplar, cuja carreira é amplamente respaldada por avaliações técnicas, desempenho consistente e confiança das principais competições nacionais e internacionais."³

A União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) também criticou duramente a decisão da FIFA. Em seu comunicado, declarou: "Uma suspensão automática mínima de uma partida após um cartão vermelho não é uma opção discricionária e não requer decisão de um órgão competente para entrar em vigor."

A entidade acrescentou: "Esse princípio não pode ser submetido a exceções, muito menos no meio de um torneio em que vários outros jogadores estiveram na mesma situação e cumpriram normalmente suas suspensões. Quando a certeza das regras deixa de ser garantida por seus guardiões, a integridade do jogo está em risco e a credibilidade de uma competição é comprometida. Expressamos nossa incredulidade diante de uma decisão sem precedentes, incompreensível e injustificável."⁴

Já o técnico da Bélgica, Rudi Garcia, adversário dos Estados Unidos nas oitavas de final, ironizou a decisão ao afirmar: "Eu não sabia que 5 de julho era igual a 1º de abril na FIFA. É necessário lembrar nosso comunicado. Muito do que sinto está lá. Não estamos defendendo apenas a seleção ou a confederação da Bélgica; estamos defendendo o futebol, sua ética e sua história. É a primeira vez na história da Copa do Mundo que uma decisão como essa é tomada."⁵

Vale registrar, ainda, a observação do jornalista Jamil Chade, segundo a qual a única lembrança histórica de uma interferência política dessa natureza remete à Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália fascista de Benito Mussolini. Naquele torneio, a influência do regime sobre a arbitragem comprometeu a credibilidade da competição e marcou negativamente a história do futebol mundial.

Esses episódios revelam semelhanças que merecem reflexão acerca da forma como governos autoritários procuram utilizar grandes eventos esportivos para fins políticos. Quando uma competição deixa de ser decidida exclusivamente dentro das quatro linhas e passa a sofrer interferências externas que relativizam a aplicação de seu próprio regulamento, enfraquecem-se os princípios da igualdade esportiva. Se decisões administrativas podem ser revistas em função da vontade política do governante do país-sede, a independência institucional da FIFA passa a ser questionada. Independentemente das preferências ideológicas de cada torcedor, preservar a autonomia das regras é condição indispensável para que a Copa do Mundo continue sendo reconhecida como a maior e mais respeitada competição do futebol mundial.

Dito tudo isso, um fato acabou se sobrepondo a todos esses episódios: dentro das quatro linhas o futebol mostrou que realmente é subversivo. No campo, instância máxima da competição onde a autoridade soberana é a bola, a justiça esportiva falou mais alto e decretou sua sentença: os Estados Unidos foram eliminados da Copa do Mundo ao serem goleados pela Bélgica por 4 a 1. Os belgas seguem na disputa, enquanto aos norte-americanos resta assistir, das arquibancadas, ao sucesso das demais seleções. No fim, prevaleceu o velho ditado da boleragem: "a bola pune".










































































terça-feira, 9 de junho de 2026

A COPA DA FIFA OU A COPA DE TRUMP?


 Por Odilon de Mattos Filho:

É consenso que o futebol é um dos esportes mais populares do mundo e um dos maiores mobilizadores de questões socioculturais e políticas, especialmente no Brasil.

Na esfera internacional, o futebol é comandado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), fundada em 1904 e sediada em Zurique, na Suíça. A entidade regulamenta e supervisiona o futebol, o futsal e o futebol de areia em todo o mundo, além de ser responsável pela organização do maior evento esportivo do planeta: a Copa do Mundo. Um torneio que deveria representar um momento de congraçamento entre os povos, mas que, no atual "padrão FIFA", tem se transformado cada vez mais em um grande negócio marcado pela exclusão e por conflitos de interesses.

O orçamento financeiro da FIFA é estruturado em ciclos de quatro anos. Estima-se que, no ciclo de 2023 a 2026, a receita da entidade alcance um recorde superior a US$ 11 bilhões, enquanto o orçamento global de despesas operacionais da Copa do Mundo de 2026 está estimado em US$ 3,75 bilhões. Mas isso não causa espanto, a FIFA se transformou numa enorme indústria do entretenimento que visa apenas o lucro. Os preços dos ingressos para essa Copa do Mundo corroboram essa afirmativa. No final do mês de maio deste ano, o ingresso mais barato para a final da Copa custava, no site da Fifa, 8.625 dólares (R$ 44,7 mil). Para um(a) cadeirante o preço estava estimado em 10.350 dólares (R$ 53,7 mil). Esse é o “padrão FIFA" de esclusão social, assistir a Copa do Mundo é para para poucos imortais, somente a burguesia.

Na organização das Copas do Mundo, a FIFA costuma se agigantar e, muitas vezes, chega a impor uma espécie de legislação própria aos países-sede. Muitos brasileiros ainda se lembram das expressões, "padrão FIFA",  "Lei Geral da FIFA" ou o "caderno de encargos da FIFa, todas amplamente utilizadas durante a preparação para a Copa de 2014. E foi por imposição dessa "legislação" da FIFA que os nossos tradicionais estádios populares foram transformados em modernas arenas e o futebol brasileiro passou por um intenso processo de financeirização. Foi mais uma demonstração de como a lógica do mercado se apropria do esporte mais popular do planeta.

Naquele período, difundiu-se a ideia da chamada "arenização". Segundo seus defensores, a substituição dos antigos estádios por arenas modernas proporcionaria mais conforto e segurança aos torcedores. Embora esses objetivos sejam legítimos e desejáveis, o resultado prático também foi uma profunda exclusão social. O futebol brasileiro tornou-se mais elitizado, uma vez que os elevados preços dos ingressos passaram a afastar grande parte da população dos estádios, restringindo o acesso a uma parcela mais abastada dos torcedores.

Passados 12 anos da Copa do Mundo realizada no Brasil, chega, com toda pompa e circunstância, a Copa do Mundo de 2026, organizada por Estados Unidos, México e Canadá, tendo os Estados Unidos como sede principal. Desta vez, porém, diferentemente do que ocorreu no Brasil, a FIFA se apresenta ao mundo como uma entidade totalmente submissa aos desejos do presidente Donald Trump.

Essa postura começou a ficar evidente com a criação do chamado "Prêmio da Paz da FIFA", distinção concedida pela primeira vez ao presidente norte-americano. Segundo a justificativa apresentada, a homenagem teria sido um reconhecimento por suas iniciativas diplomáticas voltadas para a promoção da paz e da cooperação internacional. A premiação gerou controvérsias e levantou questionamentos sobre a crescente proximidade entre a entidade máxima do futebol e o governo dos Estados Unidos.

A partir daí, sucederam-se diversos episódios envolvendo delegações, atletas, árbitros e torcedores de países que participarão da Copa do Mundo, sem que a FIFA demonstrasse a firmeza que costuma adotar em outras circunstâncias.

O primeiro caso envolve o Irã. O país conquistou sua vaga na Copa do Mundo dentro de campo, assim como a grande maioria das seleções participantes. No entanto, os Estados Unidos alegaram não poder garantir plenamente a segurança da delegação iraniana em seu território. Além disso, houve demora na emissão dos vistos para integrantes da delegação, o que acabou levando à transferência de sua base para Tijuana, no México.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, os jogadores iranianos também terão de entrar e sair dos Estados Unidos no mesmo dia das partidas, realizando viagens de ida e volta em jornadas extremamente desgastantes, situação que, evidentemente, compromete a isonomia esportiva entre as seleções.

Ainda em relação ao Irã, surgiu outra controvérsia envolvendo os torcedores. A Federação de Futebol da República Islâmica do Irã (FFIRI) afirmou que sua cota de ingressos para a Copa do Mundo foi retirada poucos dias antes do início da competição. A medida foi considerada arbitrária pelas autoridades esportivas iranianas e causou prejuízos aos torcedores que planejavam acompanhar a seleção.

Se isso não bastasse, Omar Artan, da Somália, considerado um dos mais respeitados árbitros do continente africano e escalado para atuar na Copa do Mundo, não conseguiu ingressar nos Estados Unidos, tendo sido barrado pelas autoridades migratórias sem justificativas amplamente esclarecidas.

A reação do governo somali foi imediata. Ciise Aden Abshir, assessor do Ministério da Juventude e Esportes da Somália, declarou: : "Artan é um dos árbitros mais respeitados da África. Impedi-lo de entrar nos Estados Unidos e de exercer sua função prejudica não apenas sua carreira, mas também os princípios de equidade, mérito, imparcialidade e fair play que deveriam orientar o futebol internacional."

Diante das críticas, a FIFA limitou-se a afirmar que não interfere nos processos migratórios conduzidos pelos países-sede.

Os problemas não se limitaram às delegações e à arbitragem. O atacante iraquiano Aymen Hussein, uma das principais estrelas de sua seleção, foi submetido a um longo interrogatório ao desembarcar nos Estados Unidos. Também foram relatadas dificuldades enfrentadas por profissionais da imprensa ligados à delegação iraquiana, o que ampliou as críticas sobre o tratamento dispensado a determinados países.

Imagina o frisson e os editoriais da mídia corporativa se todas essas barbáries cometidas por Trump fossem praticadas numa Copa do Mundo na China ou na Rússia? Pois é, mas o fato é que está acontecendo na dita maior democracia do mundo, porém, com uma importante observação: a questão central não é apenas Donald Trump. O que está em debate, também, é a postura da FIFA diante do poder político e econômico. Quando os interesses da entidade exigiram mudanças profundas em países como Brasil, África do Sul e Catar, a FIFA não hesitou em exercer toda a sua influência e impor suas condições. Entretanto, diante das decisões unilaterais do governo dos EUA, a entidade parece ter abdicado da autonomia que sempre reivindicou.

Mas se todas essas sandices autoritárias do governo estadunidense não bastassem, a própria FIFA teve, também, seu momento de déspota. A entidade obrigou a seleção do Haiti a modificar o seu uniforme alegando violação das regras do torneio que proíbe mensagens de cunho político. Esse absurdo foi cometido porque a fornecedora de material esportivo, Saet fez um tributo à Batalha de Veriéres, um conflito decisivo da Revolução Haitiana que marcou o fim do colonialismo francês e a criação da primeira república negra do mundo. A intenção foi unicamente celebrar a história e a resiliência do povo haitiano, sem qualquer viés ideológico atual, mas a “zelosa” FIFA, não entendeu assim e no caso dessa pequena Nação fez valer o seu poder, o mesmo que nega aplicar aos EUA.

A Copa do Mundo deveria ser um espaço de integração entre povos e culturas. Quando barreiras políticas, discriminações e restrições seletivas passam a determinar quem pode participar plenamente do evento, o futebol perde parte de sua essência universal. E, quando a FIFA aceita passivamente tais limitações, coloca em xeque não apenas sua independência institucional, mas também os valores que afirma defender.

Finalizando, vale citar parte do texto do grande jornalista, Leonardo Sakamoto que descreveu com a costumeira precisão o que representa essa Copa para o presidente dos EUA: “Trump quer a Copa como peça de sua agenda dos 250 anos da independência americana [e como propaganda para as Eleições de novembro 2026]. O mundial é para ele um troféu de prestígio internacional. O problema é que troféus não jogam futebol. Árbitros africanos, atacantes iraquianos e meias haitianos, sim. Mas esses, ao que tudo indica, não têm a origem ou a cor certas”.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

A REJEIÇÃO DE JORGE MESSIAS É REFLEXO DA POLÍTICA DE CONCILIAÇÃO

 


Por: Odilon de Mattos Filho

Segundo o professor Paulo Adib, “as origens do Supremo Tribunal Federal remontam à Proclamação da República. Com efeito, em 11 de outubro de 1890, mediante o Decreto nº 848, instituiu-se o STF, criado para suceder o antigo Supremo Tribunal de Justiça do Império. Dispunha a Constituição de 1891, em seu art. 56, que o Supremo Tribunal Federal seria composto por quinze juízes, nomeados pelo Presidente da República dentre cidadãos de notável saber e reputação, elegíveis para o Senado.”

A Constituição de 1934 alterou a denominação do Supremo Tribunal Federal para Corte Suprema e reduziu o número de ministros de quinze para onze, podendo esse número ser ampliado por lei até dezesseis, mediante proposta da própria Corte.

Em 1946, a Constituição resgatou o modelo da Primeira República, estabelecendo que os ministros do STF seriam nomeados pelo Presidente da República, após aprovação do Senado Federal, por maioria simples, dentre brasileiros maiores de 35 anos, de notável saber jurídico e reputação ilibada.

O presidente Lula foi, depois de Getúlio Vargas, o mandatário que mais indicou ministros para a Corte, totalizando dez indicações. Neste mês, indicou o então Advogado-Geral da União, Jorge Messias. No entanto, seu nome foi rejeitado pelo Senado Federal por 42 votos contrários e 32 favoráveis.

Essa derrota, ao contrário do que sustentam setores do governo, não pode ser tratada como um episódio rotineiro. Trata-se de um fato político relevante, que sinaliza tensões profundas entre o Executivo e o Congresso Nacional. Fizeram da sabadina de Jorge Messias uma disputa política por baixo objetivando, unica e exclusivamente, atingir o governo, especialmente, o presidente Lula. 

A rejeição de um indicado ao STF pelo Senado é raríssima na história brasileira, tendo ocorrido anteriormente apenas em 1894, quando o Senado rejeitou indicações do presidente Floriano Peixoto.

O episódio não é isolado. Ele expressa a natureza de um Congresso Nacional cada vez mais conservador e desconectado de amplos setores da sociedade, além de evidenciar os limites de uma política de conciliação que não altera substantivamente a correlação de forças.

Outro fator que pode ter influenciado o resultado é a disputa política interna no Senado. Parte da Casa defendia a indicação do senador Rodrigo Pacheco ao STF, o que ampliaria sua influência na Corte. Além disso, investigações envolvendo parlamentares, como no caso do Banco Master, contribuem para tensionar ainda mais o ambiente político.

A eleição de 2022 evidenciou as contradições do sistema político brasileiro. Embora tenha garantido a eleição de Lula para um terceiro mandato, também produziu um Congresso com forte presença conservadora. Isso revela os limites da representação política e os efeitos de um sistema eleitoral que favorece o personalismo, o poder econômico e a fragmentação partidária.

Os dados são ilustrativos: na Câmara dos Deputados, 72,12% dos parlamentares são brancos, 82% são homens e 357 possuem patrimônio superior a R$ 1 milhão. No Senado, o cenário é semelhante, evidenciando o distanciamento entre representantes e a composição social da população.

Mais do que uma questão de diversidade e representatividade, trata-se de um problema estrutural. O Congresso, hegemonizado por forças conservadoras, representa majoritariamente interesses do capital e concentra poder de forma crescente, especialmente na presidência da Câmara dos Deputados.

Cabe ao presidente da Câmara definir a pauta legislativa, influenciar o orçamento e exercer papel central em processos de impedimento presidencial, o que lhe confere grande poder político.

Nesse contexto, mecanismos como o chamado “orçamento secreto” reforçam práticas clientelistas e ampliam distorções na alocação de recursos públicos.

No plano político, esse cenário evidencia os limites do presidencialismo de coalizão, que frequentemente opera como instrumento de acomodação de interesses, dificultando avanços estruturais e favorecendo agendas de austeridade.

Os desdobramentos são claros: a rejeição de Jorge Messias, a derrubada de vetos presidenciais e as dificuldades na aprovação de medidas relevantes indicam a força de um bloco parlamentar que atua de forma organizada.

Não se trata de traição, mas de correlação de forças. Os parlamentares que rejeitaram a indicação já se posicionavam como oposição, e suas ações refletem interesses políticos e disputas de poder.

Às vésperas de novas eleições, esse movimento também expressa uma estratégia de afirmação política da oposição.

Diante desse quadro, o governo enfrenta o desafio de fortalecer sua base social e ampliar sua capacidade de articulação política.

A história demonstra que estabilidade institucional sem sustentação social organizada tende a produzir impasses e derrotas.

Como afirmou Simón Bolívar: “a arte de vencer se aprende nas derrotas”.


segunda-feira, 27 de abril de 2026

FIM DA ESCALA 6X1 E A GRITARIA DA BURGUESIA

 


Por: Odilon de Mattos Filho


Segundo a literatura, trabalho é uma atividade desenvolvida para alcançar um objetivo final, podendo ser realizada de forma individual ou coletiva.

A palavra trabalho, conforme explica o professor Thiago Souza, deriva do latim tripalium, que significa “três paus”, instrumento de tortura formado por três estacas de madeira cruzadas. A origem do termo revela, simbolicamente, o caráter penoso que historicamente marcou o trabalho humano.

Ao longo da história, a humanidade vivenciou diferentes formas de organização do trabalho: trabalho primitivo, escravo, feudal, capitalista e socialista.

Além disso, destaca-se a Divisão Internacional do Trabalho (DIT), que descreve como os diferentes países se inserem no sistema produtivo global, especialmente no capitalismo, estabelecendo relações desiguais entre nações centrais e periféricas.

Com a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra na segunda metade do século XVIII, consolida-se o poder econômico e político da burguesia. Esse período marca a transição da produção artesanal para a maquinofatura e aprofunda a divisão entre os detentores dos meios de produção (burguesia) e aqueles que vendem sua força de trabalho (proletariado), dando origem também à divisão social do trabalho.

Apesar de seu impacto no desenvolvimento das forças produtivas, a Revolução Industrial ficou marcada pela intensa exploração da classe trabalhadora, sobretudo por jornadas exaustivas e condições precárias de trabalho.

Ao longo do tempo, por meio de intensa organização e luta — especialmente via sindicatos e movimentos operários — os trabalhadores conquistaram direitos fundamentais, entre eles a redução da jornada de trabalho. Essas conquistas não foram concessões espontâneas, mas resultado de uma luta histórica contra os interesses da classe dominante.

Atualmente, os trabalhadores brasileiros enfrentam mais uma importante batalha: o fim da escala 6x1. Trata-se de uma reivindicação histórica, que encontra forte resistência da burguesia nacional.

Tramita na Câmara dos Deputados uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), que propõe não apenas o fim da escala 6x1, mas também a implementação de uma jornada de quatro dias semanais (escala 4x3), com possibilidade de compensação por meio de negociação coletiva. Posteriormente, o governo Lula encampou a pauta e finalmente defende de maneira concreta a PEC e abandonou o discurso hesitante que jogava a discussão para negociação em acordos e convenções coletivas de trabalho, enviando uma proposta alternativa que prevê o fim da escala 6x1 sem redução salarial, garantindo cinco dias de trabalho e dois de descanso. A PEC já foi aprovada pela CCJ da Câmara dos Deputados e agora deve passar por ima Comissão Especial e depois vai ao Plenário para votação.

Como em outras pautas sociais, a reação da burguesia tem sido imediata, baseada na disseminação de um suposto “pânico econômico”: aumento de custos, risco de inflação e redução de salários. Em essência, trata-se da defesa da manutenção das taxas de lucro — ou seja, da preservação da mais-valia.

Entretanto, experiências internacionais demonstram que jornadas reduzidas não comprometem a economia. Em diversos países europeus, a jornada de cinco dias semanais já é realidade há décadas, sem prejuízos estruturais. Pelo contrário, estudos indicam que jornadas mais equilibradas melhoram a qualidade de vida dos trabalhadores, reduzem afastamentos, aumentam a produtividade e diminuem a rotatividade.

Aliás, vale registrar a corajosa e oportuna Nota divulgada pela CNBB no dia 24/04/2026, intitulada "Mensagem ao Povo Brasileiro". Nesse documento a Entidade faz uma enfática defesa da classe trabalhadora, denunciando a precarização das relações de trabalho no Brasil e a escala 6X1. Diz parte do documento: “...Preocupa-nos a discussão no STF sobre a substituição dos contratos de trabalhos regidos pela CLT por vínculos precários de prestação de serviço, conhecidos por “pejotização. Onde desaparece o Estado, vigora a lei do mais forte. Da mesma forma, é necessário reafirmar o direito sagrado ao repouso oferecendo escala de atividades que permitam aos trabalhadores melhor qualidade de vida e mais tempo com suas família”.

Diante desse cenário, torna-se fundamental a mobilização da classe trabalhadora. O 1º de Maio deve ser um momento de unidade e luta, com manifestações em todo o país para pressionar o Congresso inimigo do povo a aprovar o fim da escala 6x1.

É urgente recolocar a classe trabalhadora no centro do debate político e manter a ofensiva nas ruas, afirmando que o tempo de vida, o lazer e a saúde não podem estar subordinados à lógica da exploração. Como bem sintetizou o sociólogo Antonio Candido: “Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida. A luta pela justiça social começa por uma reivindicação do tempo.”

terça-feira, 24 de março de 2026

ELEIÇÕES 2026: A TEMPORADA DE ATAQUES CONTRA O GOVERNO LULA ESTÁ ABERTA

 


Por: Odilon de Mattos Filho

Hoje já não há mais dúvidas — como bem explica o professor João Cezar de Castro Rocha — de que o bolsonarismo se consolidou como um movimento político de massas, com viés fascista e forte tendência autoritária.

A base, ou melhor, o motor desse movimento, encontra-se nas igrejas evangélicas — sobretudo entre pentecostais e neopentecostais — além de setores da Igreja Católica, em especial o conservador Movimento Carismático. A chamada “pauta de costumes” foi a principal narrativa responsável por aproximar e unificar esse campo religioso e político.

As igrejas evangélicas somam hoje mais de 130 mil templos espalhados por todo o território nacional e atingem, segundo o IBGE, cerca de 48 milhões de pessoas — o que representa aproximadamente 23% da população brasileira. É razoável afirmar que uma parcela significativa desses fiéis atua como base militante desse movimento, muitas vezes mobilizada por um fenômeno de dissonância cognitiva coletiva.

Sabe-se que, atualmente, setores do pentecostalismo e do neopentecostalismo utilizam a chamada Teologia da Prosperidade como instrumento para a consolidação de uma outra concepção: a Teologia do Domínio, que visa à ocupação de espaços de poder político e institucional. A chamada “bancada da Bíblia”, com cerca de 100 parlamentares, e o governo Bolsonaro corroboram essa análise.

Aliás, o saudoso governador Leonel Brizola já alertava: “Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço; o país retrocederá vergonhosamente e matarão em nome de Deus.”

A força dessas igrejas é imensurável. Reportagem da Revista Fórum informa que a Igreja Universal do Reino de Deus, liderada por Edir Macedo, pretende realizar, na Sexta-feira da Paixão, eventos simultâneos em nove estádios de futebol pelo Brasil. Trata-se de uma demonstração de força com evidente dimensão política e alvo definido: o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Partido dos Trabalhadores. O evento foi descrito por Renato Cardoso, genro de Macedo, em tom irônico, como uma “grande lata de conservas da família1”, em referência crítica a manifestações culturais que confrontam o conservadorismo.

Segundo o jornalista Zé Barbosa, autor da matéria, a escolha da Sexta-feira da Paixão amplia o impacto emocional do evento, enquanto o discurso em defesa da “família” se conecta diretamente às pautas conservadoras que mobilizam essa base. Ao mesmo tempo, críticas indiretas ao governo transformam o ato em um verdadeiro movimento político de massa, com potencial de influenciar o cenário eleitoral — inclusive em benefício de lideranças como Flávio Bolsonaro.

Esse será, ao que tudo indica, apenas o primeiro de uma série de ataques organizados por setores das igrejas evangélicas alinhados à extrema-direita contra o presidente Lula e seu governo.

Além desse expressivo contingente de “soldados de Deus”, que sustenta a extrema-direita no Brasil nos últimos anos, retorna à cena político-eleitoral a velha e conservadora imprensa brasileira — historicamente vinculada aos interesses das elites econômicas do país.

Sabe-se que a sustentação das políticas alinhadas ao imperialismo internacional só tem sido possível graças a essa retaguarda estratégica, responsável pela difusão massiva de ideias, pela formação de opinião pública e pela neutralização de qualquer reação que possa ameaçar seus interesses. Trata-se, também, de um instrumento importante na desorganização do movimento popular e na despolitização da sociedade.

A atuação dessa mídia e seu modus operandi ficaram evidentes recentemente, em uma matéria veiculada pela GloboNews, de conteúdo claramente manipulador. O episódio já figura como um dos mais graves escândalos jornalísticos da mídia brasileira contemporânea.

No dia 6 de março de 2026, a jornalista Andréia Sadi apresentou, em seu programa, um PowerPoint que remete diretamente ao método utilizado pelo ex-procurador da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol. Na peça, de forma simplista, deliberada e tendenciosa, foram apresentados supostos envolvidos no escândalo financeiro relacionado ao Banco Master e ao seu proprietário, o banqueiro Daniel Vorcaro.

De maneira premeditada e irresponsável, o material incluiu o presidente Lula, o PT e ministros do governo entre os supostos envolvidos, enquanto nomes efetivamente ligados ao caso — de conhecimento público — foram simplesmente omitidos. A repercussão foi imediata: a matéria foi duramente criticada nas redes sociais e por diversos jornalistas independentes.

O analista Jeferson Miola afirmou que “a Globo retomou a construção de narrativas típicas do período da Lava Jato, utilizando recursos gráficos de forte apelo simbólico para influenciar a opinião pública. Destacou ainda a ausência, na apresentação, de nomes relevantes como Jair Bolsonaro, Ibaneis Rocha, Cláudio Castro, representantes do mercado financeiro e até mesmo a própria Globo, que teria mantido relações com o empresário investigado...2”

No mesmo sentido, o jornalista Florestan Fernandes Jr. avaliou que “a emissora volta a exercer um “jornalismo de resultado”, com o objetivo de tutelar o processo eleitoral. Segundo ele, caso não consiga viabilizar uma candidatura de “terceira via”, como Tarcísio de Freitas ou Ratinho Júnior, a Globo pode voltar a flertar com o bolsonarismo3”.

Diante da repercussão negativa, a jornalista apresentou um pedido de desculpas que, longe de reparar os danos, agravou ainda mais a situação. A retratação foi considerada insuficiente e evasiva e também recebeu inúmeras críticas.

O jornalista Bernardo Cotrim do ICL, escreveu que “...um pedido de desculpas é uma expressão sincera de arrependimento e tentativa de mitigar o dano produzido, assumindo a responsabilidade pelo ato, mesmo que não exista a intenção; já uma errata é a correção de uma obra, assinalando cada um dos erros cometidos e apontando a forma correta..O texto apresentado no Estúdio i não é nem uma coisa, nem outra. O parágrafo claudicante não estabelece de quem foi a responsabilidade pela exibição de algo tão aberrante, não cita os nomes de quem devia figurar na “arte”, não informa quem apareceu na peça por engano. Ficou explícito que a “autocrítica” capenga visa única e exclusivamente minimizar o dano causado à imagem da própria emissora. Uma ação tardia de “vacina”, tão patética quanto desonesta4”.

Diante desse cenário, torna-se evidente a necessidade de uma reação política e institucional firme por parte do governo. Está em curso um processo articulado por setores das elites financeiras nacional e internacional que visa prostituir e influenciar o processo e o resultado das eleições de 2026.

Parte da burguesia aposta na construção de uma “terceira via” (Eduardo Leite ex-governador do RS), No entanto, caso essa alternativa não se viabilize, não há dúvidas de que esses setores poderão novamente se alinhar à extrema-direita.

Se a esquerda não retomar o debate ideológico, não ganhar as ruas e fortalecer o diálogo com os movimentos sociais, sindicais e com a sociedade em geral, não entender o bolsonarismo como movimento de massas,  e por fim, não enxergar o peso das Igrejas Evangélicas na política e na transformação da sociedade brasileira contemporânea, a reeleição do presidente Lula corre sério risco.

Toda atenção é pouco, o ovo da serpente está prestes a se romper e se isso ocorrer, o Brasi será, docilmente recolonizado e a sociedade poderá mergulhar em um novo ciclo de retrocessos político, econômico, social e cultural semelhante aos anos de chumbo.















1Fonte: https://revistaforum.com.br/brasil/familia-ao-pe-da-cruz-edir-marcedo-fara-ato-contra-lula-e-alugou-9-estadios-de-futebol-pra-isso/
2Fonte: https://www.brasil247.com/blog/bem-vindos-voltamos-a-2015-2016-ua3302pb
3Fonte: https://www.brasil247.com/blog/entre-a-delacao-e-a-eleicao-o-novo-roteiro-da-globo
4Fonte: https://iclnoticias.com.br/entre-a-errata-e-o-pedido-de-desculpas-a-globo-escolheu-o-caminho-do-meio/ttps://revistaforum.com.br/brasil/familia-ao-pe-da-cruz-edir-marcedo-fara-ato-contra-lula-e-alugou-9-estadios-de-futebol-pra-isso/

segunda-feira, 16 de março de 2026

O PAPEL DA EXTREMA-DIREITA INTERNACIONAL NAS ELEIÇÕES DE 2026



Por: Odilon de Mattos Filho

O grande escritor uruguaio Eduardo Galeano escreveu que “nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia; nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos”.

Diante das barbáries cometidas pelo imperialismo do Norte — em especial na América do Sul — impressiona a atualidade dessa reflexão de Galeano.

É sabido que essa postura beligerante e esse falso comportamento de tutores do mundo dos EUA está diretamente ligada aos objetivos da Doutrina Monroe, formulada em 1823. Essa doutrina, aparentemente protetiva para as nações do hemisfério ocidental, serviu, na prática, como álibi para a interferência dos Estados Unidos nos países do continente. Tornou-se terreno fértil para consolidar uma cultura expansionista baseada na pilhagem e em mecanismos de espoliação. E essa conduta ganha mais visibilidade com o segundo governo de Donald Trump e suas incursões mundo afora, em especial na América do Sul.

Sabe-se que o Brasil é o principal país Sul-americano, considerando sua dimensão territorial e populacional — ou seja, um enorme mercado consumidor — além de suas vastas riquezas naturais. Esses fatores, por si só, despertam a cobiça dos mercados internacionais e das potências imperialistas, em particular dos Estados Unidos.

Partindo dessa premissa, há basicamente duas formas históricas de efetivar essa cobiça sobre nossas riquezas: por meio da intervenção militar ou pela condescendência de governos subalternos. A segunda hipótese, neste momento, parece improvável diante do discurso firme do governo Lula em defesa da soberania nacional.

No entanto, estamos em um ano eleitoral, e as pesquisas de opinião apontam para uma nítida divisão ideológica no país: de um lado, setores progressistas que apoiam o governo Lula; de outro, uma oposição alinhada à extrema-direita.

É evidente que os Estados Unidos encabeçam essa cobiça pelas riquezas brasileiras. O governo de Donald Trump, atento a esse cenário, teria interesse direto nas eleições brasileiras, dada sua afinidade ideológica com a extrema-direita nacional e com governos alinhados na região.

Não há dúvida de que o Brasil se tornou alvo prioritário de setores da extrema-direita mundial. E, por mais paradoxal que pareça, parte significativa da extrema-direita brasileira encontra-se profundamente comprometida com interesses internacionais, especialmente os dos Estados Unidos. Hoje, já não se percebe qualquer projeto nacional consistente por parte do bolsonarismo, principal vertente da extrema-direita.

Nesse contexto, chama atenção o grau de ousadia desses setores. Informações veiculadas pela imprensa indicam que os Estados Unidos, por meio da Câmara Americana de Comércio para o Brasil, estariam organizando eventos em São Paulo, sem a participação do governo federal, para discutir minerais críticos em território brasileiro. Há também relatos de que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, teria firmado entendimentos com representantes norte-americanos sobre a exploração de terras raras no estado.

Tais iniciativas, se confirmadas, afrontam diretamente a Constituição Federal (artigos 20, 21 e 176), que estabelece o controle estratégico desses recursos pela União. Ainda assim, como aponta o deputado federal Glauber Braga, a estratégia adotada seria a da “política do fato consumado”: avançar na apropriação e, posteriormente, transferir a disputa para o campo jurídico, quando os efeitos já estiverem consolidados, e aí, "Inês é morta". Trata-se de uma velha e conhecida política de pressão.

Não se pode ignorar, também, que a extrema-direita brasileira tem utilizado de maneira muito eficaz a chamada guerra cultural e nossa herança maniqueísta para impor suas narrativas, levando milhões de brasileiros a uma dissonância cognitiva coletiva sem precedentes na história do país.

Nesse sentido, não se pode esquecer, por exemplo, da continência prestada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro à bandeira dos Estados Unidos, dos apelos para que o governo Trump elevasse tarifas sobre produtos brasileiros exportados para aquele país e até mesmo de manifestações que chegaram a pedir intervenção militar estrangeira no Brasil.

Nesse contexto, escreveu o jornalista Jamil Chade que “a extrema-direita latino-americana e o governo de Donald Trump iniciam uma ofensiva contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, no que está sendo interpretado como um ensaio geral para uma ingerência nas eleições brasileiras".

Segundo Jamil Chade, atos recentes nos Estados Unidos, na Argentina e no Chile acenderam o alerta no Palácio do Planalto e no Ministério das Relações Exteriores sobre uma articulação que poderia buscar desestabilizar o processo eleitoral brasileiro. Nesse cenário, a ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas teria sido interpretada por setores ultraconservadores como um sinal de viabilidade eleitoral, mesmo diante da condenação de Jair Bolsonaro.

Corroborando essa interpretação — e talvez como parte de uma estratégia —, vale lembrar que, passados mais de um ano da posse de Donald Trump, os Estados Unidos ainda não possuem embaixador em Brasília. Isso abre espaço para interlocuções paralelas, fora dos canais diplomáticos tradicionais.

Aproveitando-se dessa situação atípica, o governo Trump tentou enviar ao Brasil um de seus representantes mais extremistas, Darren Beattie, ideólogo de extrema-direita próximo ao clã Bolsonaro e responsável por supervisionar assuntos relacionados ao país.

Segundo informações divulgadas, esse assessor pretendia visitar, na chamada “Papudinha”, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo STF, além de manter contatos com autoridades do Judiciário, como o futuro presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Cássio Nunes Marques.

Esses movimentos geraram forte mal-estar no governo Lula e no Itamaraty, uma vez que o pedido de visto teria omitido deliberadamente essas intenções. Diante disso, o governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores e em um gesto de afirmação da soberania nacional, cancelou o visto de Darren Beattie.

Esse episódio constitui apenas um exemplo das possíveis intenções intervencionistas de setores da extrema-direita internacional no processo eleitoral brasileiro de 2026. Caso não consigam eleger um presidente alinhado aos seus interesses, não se pode descartar a tentativa de justificar outras formas de pressão ou intervenção, inclusive sob o pretexto do combate ao terrorismo ou ao narcotráfico.

Por essas razões, todo cuidado é pouco. Não há espaço para descuido. Os sinais de articulação da extrema-direita latino-americana e de setores do governo Trump contra o Brasil exigem vigilância permanente. Cabe ao governo e às instituições republicanas estabelecer como prioridade absoluta a preservação da integridade do processo eleitoral brasileiro, impedindo, com todos os instrumentos legais e institucionais disponíveis, qualquer tentativa de ingerência externa nas eleições de 2026.

O sinal amarelo está aceso!























































1-Fonte: https://iclnoticias.com.br/brasil-revoga-visto-de-enviado-de-trump-e-fala-em-ma-fe/