Por Odilon de Mattos FilhoMuitos brasileiros, especialmente aqueles que militam no campo da esquerda, vivem um momento de apreensão e descompasso diante das eleições de 2026. O primeiro grande golpe veio com a surpreendente vitória do principal candidato de oposição ao presidente Lula.
Muitos — inclusive este escriba — acreditavam que o filho de Bolsonaro não seria páreo para o presidente Lula, considerando seu passado político e sua vida pregressa, com um enorme teto de vidro. Ledo engano!
Não obstante essa nossa posição, sempre procuramos fazer, neste espaço, uma análise mais crítica sobre o governo Lula 3 e, principalmente, sobre o descaso de parte da esquerda com a força do movimento bolsonarista, que encontrou nas igrejas evangélicas e também em setores da Igreja Católica uma de suas bases eleitorais mais fortes e fiéis.
Aliado a isso, a extrema-direita percebeu muito antes da esquerda o enorme potencial das plataformas digitais como poderosas ferramentas políticas, eleitorais e de comunicação de massa. A extrema-direita é hoje um fenômeno das redes sociais.
Em contrapartida, a esquerda brasileira parece continuar presa aos tempos do mimeógrafo e da tipografia — numa espécie de Segunda Revolução Industrial política e comunicacional.
Enquanto abnegados militantes de esquerda continuam cumprindo a importante missão de distribuir panfletos, vender jornais e conversar com a população nos pontos de ônibus, nas praças e nos poucos portões de fábrica que ainda existem, a extrema-direita, com um simples clique, consegue, em poucos segundos, alcançar milhões de pessoas. É um abismo colossal de alcance, velocidade e eficiência comunicacional.
Evidentemente, não se trata de desprezar a militância de rua. Muito pelo contrário. A presença física, a organização popular, os sindicatos, os movimentos sociais, as reuniões comunitárias, as praças e os locais de trabalho continuam sendo fundamentais para qualquer projeto político que pretenda transformar a sociedade. O problema é imaginar que podemos disputar a consciência de milhões de brasileiros utilizando apenas ferramentas concebidas para uma realidade que já não existe.
Por sinal, neste contexto, a jovem Ana Elisa, deputada federal do PT eleita por Minas Gerais com mais de 500 mil votos, mandou um recado direto para a campanha de Lula e para a esquerda brasileira:
“Eu gostaria de deixar realmente um apelo para toda a esquerda. É o momento de nós deixarmos realmente a ignorância de lado, calçarmos a sandália da humildade e entendermos que, com a rede social, a gente precisa, sim, aprender (...). A vida está sendo pautada na tela do telefone e não na rua.” A declaração merece ser ouvida com atenção.
Aliás, não é novidade para ninguém o descaso — e, em alguns momentos, a incompetência — dos governos petistas na área da comunicação. Imagine se o governo soubesse comunicar ao povo, de maneira inteligente, simples e eficaz, todas as conquistas e avanços obtidos para a população mais vulnerável e para a classe trabalhadora brasileira.
Certamente, a extrema-direita teria muito mais dificuldade para construir a narrativa de que tudo está errado e de que nenhum avanço aconteceu.
Não se trata, portanto, apenas de fazer propaganda de governo. Trata-se de disputar narrativas, apresentar fatos, dialogar com a população e mostrar, de forma compreensível, quem ganha e quem perde com cada projeto político.
Uma pesquisa do DataSenado já havia demonstrado, há anos, a crescente influência das redes sociais como fonte de informação para o eleitor. Nas eleições de 2018, quase metade dos entrevistados — 45% — afirmou ter decidido o voto levando em consideração informações vistas em alguma rede social. Entre as 2,4 mil pessoas entrevistadas, 79% disseram utilizar as redes sociais para se informar.
Aquela pesquisa já mostrava uma transformação profunda na maneira como o eleitor brasileiro se informa e forma sua opinião. Agora, em 2026, a força dessas plataformas é ainda maior.
E aqui está um dos grandes problemas da esquerda: enquanto setores da extrema-direita compreenderam rapidamente o funcionamento dos algoritmos, aprenderam a produzir conteúdos curtos, emocionais e facilmente compartilháveis e construíram verdadeiras redes de comunicação política, boa parte da esquerda ainda discute se deve ou não entrar nesse terreno.
A especialista em Marketing Político Martha Romano resumiu bem esse desafio ao afirmar: “Tem um pessoal da extrema-direita que é muito criativo. Eles estudam como as plataformas funcionam e usam isso dentro do discurso deles. O que a gente tem que fazer é a mesma coisa: dominar as plataformas, testar formatos e ousar.1”
A questão, portanto, não é simplesmente estar nas redes sociais. É saber utilizá-las. A eficácia dessa poderosa ferramenta, inclusive para o campo progressista, pode ser observada em episódios recentes.
A discussão sobre a escala 6×1, por exemplo, demonstrou que uma pauta historicamente defendida pelos movimentos sociais e pela esquerda pode alcançar enorme repercussão nas plataformas digitais quando consegue dialogar diretamente com as preocupações concretas da classe trabalhadora.
O mesmo pode ser observado em outras pautas, como a defesa da democracia, a reação às medidas contra Bolsonaro e o debate sobre a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. Quando a esquerda consegue transformar suas pautas em mensagens simples, compreensíveis e emocionalmente conectadas com a vida cotidiana das pessoas, o alcance pode ultrapassar — e muito — os limites de sua militância tradicional. É preciso, entretanto, reconhecer também o outro lado dessa disputa.
A historiadora e youtuber Laura Sabino, em entrevista sobre a utilização das redes sociais, chamou atenção para o papel das grandes empresas de tecnologia e para a relação entre dinheiro, algoritmos e disputa política. Segundo ela, "as redes sociais favorecem respostas rápidas para problemas complexos e podem beneficiar aqueles que possuem mais recursos para impulsionar suas mensagens. Essa dimensão econômica não pode ser ignorada. A esquerda não precisa se transformar na extrema-direita para vencer a extrema-direita. Precisa, sim, compreender que conteúdo verdadeiro também precisa ser interessante; política também precisa saber contar histórias; boas ideias também precisam aprender a disputar atenção2".
Não temos a pretensão de colocar as plataformas digitais como uma espécie de panaceia capaz de resolver todos os problemas da esquerda brasileira. Seria um erro monumental. Temos consciência de que os ensinamentos do velho Karl Marx continuam tão presentes quanto as redes sociais. O pano de fundo de tudo isso continua sendo a luta de classes. O que mudou foram as ferramentas utilizadas para disputar a consciência da sociedade. A classe trabalhadora de hoje continua enfrentando exploração, desigualdade, precarização do trabalho e concentração de renda. Mas agora também vive, trabalha, conversa, se informa e forma sua opinião dentro de um universo digital dominado por algoritmos e plataformas privadas.
É nesse novo território que a esquerda precisa estar presente. E estar presente não significa abandonar a rua. Ao contrário: precisamos construir uma verdadeira simbiose entre a militância de rua e a militância digital. O panfleto pode continuar existindo, mas precisa dialogar com o QR Code. O discurso na praça ou no Portão da fábrica pode continuar existindo, mas pode virar um vídeo de 30 segundos capaz de chegar a milhares de pessoas. Precisamos, enfim, abandonar a falsa escolha entre a rua e a tela. A esquerda brasileira não pode continuar utilizando as ferramentas do século passado para disputar a política do século XXI.
Ainda há tempo para virar esse jogo, mas é preciso acordar e ter coragem...Força na luta, companheirada!
1-Fonte: https://fpabramo.org.br/como-a-esquerda-avanca-na-disputa-das-redes/
2Fonte:https://www.brasildefato.com.br/podcast/visoespopulares/2026/06/10/o-algoritmo-e-obscuro-mas-ha-espaco-para-a-esquerda-diz-laura-sabino/