Depois do processo de redemocratização, iniciado na década de 1980, o Brasil realizou dez eleições diretas para a Presidência da República: 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e 2026. Em oito delas, o Partido dos Trabalhadores chegou ao segundo turno, com Lula ou Dilma Rousseff. As únicas exceções foram 1994 e 1998, quando Fernando Henrique Cardoso venceu no primeiro turno. Dessas dez eleições, Lula venceu quatro e Dilma Rousseff, duas.
A trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva é conhecida por grande parte dos brasileiros e já faz parte da história contemporânea do país. Lula surgiu como uma das principais lideranças do movimento sindical brasileiro, enfrentou a ditadura militar nas grandes greves do ABC paulista, participou da construção do processo de redemocratização e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores.
Em 1982, candidatou-se ao Governo do Estado de São Paulo e sofreu sua primeira derrota eleitoral. Em 1986, foi eleito deputado federal por São Paulo e tornou-se o deputado constituinte mais votado do país. A partir daí, sua trajetória política estaria cada vez mais vinculada à disputa pela Presidência da República.
Com a quarta eleição do presidente Lula, ele iguala a façanha do presidente dos Estados Unidos Franklin Delano Roosevelt e se torna, com todos os méritos, a maior liderança política da América Latina e, indubitavelmente, um dos maiores estadistas do mundo na atualidade.
É preciso registrar, ainda, a dimensão histórica desse feito. A vitória de Lula ocorreu em uma das maiores democracias do mundo, em um país de dimensões continentais, quinto maior do planeta em extensão territorial e entre os países mais populosos do mundo. A combinação desses fatores faz com que a trajetória política de Lula, especialmente depois da eleição de 2026, seja inevitavelmente objeto de pesquisas, teses acadêmicas e estudos políticos em universidades brasileiras e estrangeiras.
A eleição de 2026 ficará marcada como uma das mais disputadas da história da República. Pela primeira vez em sua longa trajetória eleitoral, Lula entrou no segundo turno em segundo lugar. O primeiro turno confirmou aquilo que muitos analistas vinham apontando: Flávio Bolsonaro terminou à frente, com 56.104.503 votos, correspondentes a 47,03% dos votos válidos, contra 53.879.538 votos de Lula, ou 45,16%. A diferença foi de 2.224.965 votos.
Aliás, vale um parêntese: Flávio Bolsonaro jogava todas as suas fichas nessa vitória, pois ela poderia representar sua única chance de se livrar das múltiplas investigações que recaem sobre ele, relacionadas a suspeitas de crimes como lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, evasão de divisas e organização criminosa, no entanto, o tiro saiu pela culatra e sua única saída foi fugir com a família para EUA.
E realmente tudo corria a favor do candidato fujão, pois a situação política e eleitoral de Lula era muito desfavorável. Contudo, um acontecimento imprevisível foi superado por dois fenômenos inusitados na política nacional: o primeiro, a explosão espontânea das massas; o segundo, a reviravolta que resultou na vitória histórica de Luiz Inácio Lula da Silva, que assegurou seu quarto mandato e atingiu a marca de mais de 500 milhões de votos, considerando todas as eleições das quais participou, configurando assim, um feito sem precedente na história da democracia mundial.
Um dos fatores que contribuíram extraordinariamente para a vitória de Lula, certamente, foi essa explosão espontânea das massas, que se alastrou como um rastilho de pólvora Brasil afora, produzindo gigantescas manifestações pró-Lula nas capitais dos Estados e em cidades de médio e pequeno porte.
Mais uma vez, a democracia brasileira foi bravamente defendida pelos estudantes. Essa explosão foi puxada pelos alunos da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), e, depois disso, o que vimos foi a juventude ganhar as ruas do país e iniciar uma virada eleitoral jamais vista na história da República Federativa do Brasil.
Aliás, sobre a importância dos grandes movimentos e, particularmente, sobre a necessidade de aproveitar as situações de crise para mobilizar as massas, Leon Trotsky escreve que “...a vitória é uma tarefa estratégica. É necessário aproveitar as condições favoráveis que uma crise revolucionária oferece para mobilizar as massas... É necessário impulsioná-las para frente, fazê-las compreender que o inimigo não é de maneira nenhuma onipotente, que ele está dilacerado por suas contradições e que, por trás de sua impotente fachada, reina o pânico” (“Classe – Partido e Direcção”).
Foi exatamente isso que, em alguma medida, aconteceu no segundo turno de 2026.
Outro fator que contribuiu sobremaneira para essa lendária virada foram as redes sociais, um elemento que o campo progressista resistia em aceitar, mas que o jovem deputado Janones (Avante/MG), com inteligência, resistência e coragem, mostrou à organização da campanha de Lula a importância desse elemento na atual conjuntura política nacional.
Aliás, nesse contexto, no dia 06/10/2026, escrevemos neste espaço um artigo cujo título foi: “Não pode haver dilema entre as redes e as ruas”. Nesse texto, defendemos a importância das ruas e das redes e ressaltamos que a esquerda precisa construir uma verdadeira simbiose entre a militância de rua e a militância digital.
O panfleto pode continuar existindo, mas precisa dialogar com o QR Code. As manifestações e os discursos nas praças ou nos portões das fábricas podem continuar existindo, mas também podem se transformar em vídeos de 30 segundos, capazes de chegar a milhares de pessoas.
Precisamos, enfim, abandonar a falsa escolha entre a rua e a tela. A esquerda brasileira não pode continuar utilizando as ferramentas do século passado para disputar a política do século XXI.
E encerramos o texto com a seguinte frase: “Ainda há tempo para virar esse jogo, mas é preciso acordar e ter coragem.”
Por fim, o que se espera depois dessa eleição é que o campo progressista compreenda as grandes lições deixadas pelas urnas e pelas ruas.
A primeira delas é que as bases históricas da esquerda continuam sendo fundamentais. Organização partidária, sindicatos, movimentos sociais, juventude, movimento estudantil e presença territorial continuam sendo instrumentos indispensáveis para qualquer projeto de transformação social.
O grande desafio do futuro próximo será, portanto, estimular as massas a ganharem as ruas quando forem chamadas a defender seus interesses, mas também construir uma militância digital capaz de disputar ideias, narrativas e consciências.
As grandes manifestações populares podem dar ao governo Lula 4 uma importante sustentação social e política, ou seja, a verdadeira governabilidade. Mas essa sustentação não será automática. É preciso que o quarto mandato de Lula não fique preso á celebração de uma vitória eleitoral histórica. Precisará representar também a oportunidade de construir um governo mais conectado com as ruas, com os movimentos sociais e com as necessidades concretas do povo brasileiro, por meio de políticas públicas voltadas para a melhoria das condições de vida da classe trabalhadora, dos jovens, dos pobres e das camadas mais vulneráveis da sociedade.
A mensagem que veio das urnas e das ruas é clara, cabe ao governo saber interpretá-las!