Sabe-se que no Brasil, os templos Evangélicos, particularmente os pentecostais e neopentecostais, deram um salto de crescimento nos últimos 30 anos e hoje, segundo o IBGE, somam 32% da população.
A força das Igrejas Evangélicas como moldadores da personalidade de seus fiéis e a disseminação de suas Doutrinas/Teologias ultrapassam fronteiras e influenciam outras Nações. No livro “Os Demônios Descem do Norte”, o autor Délcio Monteiro de Lima mostra um retrato de grande parte da população estadunidense que serve como parâmetro para entendermos o fenômeno religioso/político que acontece hoje no Brasil.
E realmente esse retrato fica evidente quando se analisa o atual comportamento social e político do brasileiro e a "a disputa ideológica — e não mera polarização — entre os campos progressista e ultraconservador.
Neste contexto, sabe-se que a extrema-direita utiliza a pauta de costumes como instrumento de mobilização e cooptação de seus apoiadores e seu discurso mais do que ir ao encontro do que prega a Doutrina das Igrejas Evangélicas, encontra ampla receptividade em parte dessas igrejas e nos lares dos fiéis, resultando no crescimento extraordinário da extrema-direita do país.
Em tempos de Copa do Mundo de Futebol, sempre aparecem as famosas teorias da conspiração e nessa Copa não foi diferente, talvez não se trata dessa teoria, mas sim de um debate que procura analisar a vergonha do futebol brasileiro e nessa análise apareceu a tese da influência das Igrejas evangélicas na seleção brasileira de futebol.
O debate surgiu no tradicional jornal Inglês, The Times. À primeira vista parece uma discussão sem qualquer sentido, mas se aprofundar nas discussões pode ser considerado mais um elemento na tentativa de se explicar o fracasso da nossa seleção.
Não se trata de afirmar que a religião dos atletas seja, por si só, responsável pelo declínio técnico da seleção, mas de discutir se determinadas mudanças culturais decorrentes da expansão do evangelicalismo podem ter influenciado aspectos da identidade coletiva historicamente associada ao futebol brasileiro. Aliás, o próprio jornal destaca na matéria, que as mudanças no futebol brasileiro refletem transformações culturais mais amplas, e não apenas religiosas. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam fatores como a globalização do esporte, a profissionalização precoce dos atletas, a influência do futebol europeu e mudanças no comportamento da sociedade brasileira.
Segundo dados do referido jornal esse aumento dos números de evangélicos no Brasil refletiu, também, na seleção brasileira. De acordo com o periódico, pelo menos 20 dos 26 que foram convocados professam a fé evangélica, e no nosso entender essa mesma proporção ou quase isso, se aplica no futebol profissional do país.
As redes sociais já estão debatendo o tema e se levarmos em consideração o autor do livro “Os Demônios Descem do Norte” podemos afirmar que um dos memes que circula nas redes sociais faz total sentido. Diz o meme: “Reze como um gringo, jogue como um gringo”, fazendo alusão de que o cristianismo evangélico contemporâneo seria uma influência importada dos Estados Unidos, país sem tradição no futebol da elite mundial.
E realmente há uma grande influência dos evangélicos no futebol brasileiro, não por acaso, surgiu no Brasil em 1984, capitaneado pelo goleiro do Atlético Mineiro, João Leite, o Movimento denominado “Atletas de Cristo”.
Aliás, esse Movimento cresceu de forma exponencial e isso é muito visível quando observamos as manifestações públicas dos jogadores de religiosidade antes e depois das partidas, como orações coletivas, declarações de agradecimento a Deus e atéas justificativas pelas derrotas não ficam apenas na análise do jogo, sempre vem acompanhadas do que do que alguns filósofos da argumentação denominam de 'falácia do argumento divinizado', isto é, quando uma decisão ou acontecimento é justificado exclusivamente pela vontade divina, tornando a discussão imune a qualquer contestação racional.
A propósito, a entrevista concedida por Endrick após a derrota para a Noruega e justificando o gol perdido, corrobora a “Falácia do Argumento Divinizado”. Disse o atacante: “Foi um momento em que eu poderia ter feito melhor. Não consegui, mas agradeço a Deus pela oportunidade1”
Neste contexto, vale ressaltar também nessas entrevistas e até na vida pessoal desses “Atletas em Cristo”, a presença da Teologia da Prosperidade das Igrejas Neopentecostais que foca no individualismo ao enfatizar experiências místicas exclusivamente individuais e vitórias pessoais imediatas e nunca no coletivo.
Aliás, nesse sentido o Padre Jesuíta, Bruno Franquelli, trouxe essa discussão à baila com uma argumentação bem fundamentada e que nos leva a refletir sobre esse tema: Diz o Padre: “..Depois da eliminação do Brasil, o jornal britânico, The Times publicou um debate que está crescendo. Será que a mudança religiosa entre os jogadores também mudou a identidade da nossa seleção? Essa pergunta me lembrou imediatamente de Max Weber, este sociólogo que mostrou que o protestantismo ajudou a construir uma ética baseada na responsabilidade individual, na disciplina e na relação direta entre o indivíduo e Deus. Essa visão fortalece a autonomia pessoal e os méritos individuais...Essa é a minha hipótese, que essa é uma mudança cultural que também está chegando no futebol. Quando o valor central de uma cultura passa para um indivíduo, isso pode influenciar na maneira como o grupo trabalha, coopera e se sacrifica pelo coletivo. O futebol brasileiro sempre foi reconhecido pelo jogo coletivo...É claro que uma religião não pode explicar tudo, nem todo o desempenho da seleção. Mas como ensinou Max Weber, a religião molda valores, e valores moldam comportamentos até mesmo no campo de futebol...Talvez seja preciso olhar para a cultura que está formando essa geração de jogadores2”
Nesse mesmo sentido, o historiador brasileiro André Pagliarini, da Universidade Estadual da Louisiana, que foi ouvido pelo jornal The Times, disse “que o crescimento do neopentecostalismo ajudou a impulsionar mudanças estruturais na sociedade brasileira que também chegaram ao futebol….Segundo ele, as grandes seleções brasileiras surgiram em uma cultura que valorizava o coletivo acima do indivíduo, característica que estaria sendo enfraquecida paralelamente ao crescimento de correntes religiosas mais voltadas para a experiência individual...3”.
Por fim, citamos o jornalista da República Dominicana Elvin Calvino que , escreveu: “O futebol brasileiro tinha uma identidade enraizada na exuberância, festividade e colorido de uma cultura nascida do sincretismo entre o catolicismo e tradições religiosas de origem africana. Quando o Brasil dominava a Copa do Mundo, os jogadores chegavam aos estádios cantando samba e tocando tambores afro-brasileiros. Sua forma de jogar em campo era simplesmente uma extensão da celebração...Hoje, no entanto, os jogadores do Brasil são em sua maioria evangélicos. E o evangelicalismo—dadas suas raízes dispensacionalistas e escatologia rígida—rejeita todas as formas de sincretismo e diversidade. Em outras palavras, põe fim ao “futebol como celebração...Agora, tocar tambores e invocar os santos do sincretismo afro-brasileiro é visto como obra do diabo; é desaprovado. Eles se tornaram sombrios, regimentados e previsíveis—tanto em suas vidas pessoais quanto em campo4”.
Dito tudo isso, o fato é que a Seleção brasileira fracassou mais uma vez e vamos completar na próxima Copa do Mundo, vinte e oito anos sem conquistar esse Torneio. As análises sobre essas derrotas são muitas, passando pela abjeta politicagem da CBF, ciclos mal feitos, globalização do esporte, profissionalização precoce dos atletas, mudanças no comportamento da sociedade brasileirae por que não, o crescimento do Movimento Evangélico no meio dos “Atletas de Cristo”. Mas independentemente de concordarmos ou não com essa hipótese, o debate suscitado por jornalistas, historiadores e estudiosos revela que o futebol brasileiro talvez esteja refletindo mudanças culturais profundas vividas pela sociedade. Ignorar essa discussão seria abrir mão de compreender um dos aspectos da transformação da identidade nacional.
1Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/jornal-britanico-associa-avanco-evangelico-ao-declinio-do-futebol-brasileiro/
2Fonte: https://www.instagram.com/reel/DaqtfgXNZ9m/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
3Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/jornal-britanico-associa-avanco-evangelico-ao-declinio-do-futebol-brasileiro/
4Fonte: https://radiorirbrasil.com.br/2026/07/12/jornal-diz-sobre-a-selecao-brasileira/







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