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domingo, 12 de julho de 2026

A INFLUÊNCIA DAS IGREJAS EVANGÉLICAS NA IDENTIDADE DA SELEÇÃO BRASILEIRA

 

Por Odilon de Mattos Filho

Sabe-se que no Brasil, os templos Evangélicos, particularmente os pentecostais e neopentecostais, deram um salto de crescimento nos últimos 30 anos e hoje, segundo o IBGE, somam 32% da população.

A força das Igrejas Evangélicas como moldadores da personalidade de seus fiéis e a disseminação de suas Doutrinas/Teologias ultrapassam fronteiras e influenciam outras Nações. No livro “Os Demônios Descem do Norte”, o autor Délcio Monteiro de Lima mostra um retrato de grande parte da população estadunidense que serve como parâmetro para entendermos o fenômeno religioso/político que acontece hoje no Brasil.

E realmente esse retrato fica evidente quando se analisa o atual comportamento social e político do brasileiro e a "a disputa ideológica — e não mera polarização — entre os campos progressista e ultraconservador.

Neste contexto, sabe-se que a extrema-direita utiliza a pauta de costumes como instrumento de mobilização e cooptação de seus apoiadores e seu discurso mais do que ir ao encontro do que prega a Doutrina das Igrejas Evangélicas, encontra ampla receptividade em parte dessas igrejas e nos lares dos fiéis, resultando no crescimento extraordinário da extrema-direita do país.

Em tempos de Copa do Mundo de Futebol, sempre aparecem as famosas teorias da conspiração e nessa Copa não foi diferente, talvez não se trata dessa teoria, mas sim de um debate que procura analisar a vergonha do futebol brasileiro e nessa análise apareceu a tese da influência das Igrejas evangélicas na seleção brasileira de futebol.

O debate surgiu no tradicional jornal Inglês, The Times. À primeira vista parece uma discussão sem qualquer sentido e que beira a intolerância religiosa, mas que na verdade,  se aprofundarmos nas discussões pode ser considerado mais um elemento na tentativa de se explicar o fracasso da nossa seleção.

Não se trata de afirmar que a religião dos atletas seja, por si só, responsável pelo declínio técnico da seleção e que houve a capitulação do futebol, o que está proposto é a discussão de determinadas mudanças culturais decorrentes da expansão do evangelicalismo podem ter influenciado aspectos da identidade coletiva historicamente associada ao futebol brasileiro. Aliás, o próprio jornal destaca na matéria, que as mudanças no futebol brasileiro refletem transformações culturais mais amplas, e não apenas religiosas. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam fatores como a globalização do esporte, a profissionalização precoce dos atletas, a influência do futebol europeu e mudanças no comportamento da sociedade brasileira.

Segundo dados do referido jornal esse aumento dos números de evangélicos no Brasil refletiu, também, na seleção brasileira. De acordo com o periódico, pelo menos 20 dos 26 que foram convocados professam a fé evangélica, e no nosso entender essa mesma proporção ou quase isso, se aplica no futebol profissional do país.

As redes sociais já estão debatendo o tema e se levarmos em consideração o autor do livro “Os Demônios Descem do Norte” podemos afirmar que um dos memes que circula nas redes sociais faz total sentido. Diz o meme: “Reze como um gringo, jogue como um gringo”, fazendo alusão de que o cristianismo evangélico contemporâneo seria uma influência importada dos Estados Unidos, país sem tradição no futebol da elite mundial.

E realmente há uma grande influência dos evangélicos no futebol brasileiro, não por acaso, surgiu no Brasil em 1984, capitaneado pelo goleiro do Atlético Mineiro, João Leite, o Movimento denominado “Atletas de Cristo”.

Aliás, esse Movimento cresceu de forma exponencial e isso é muito visível quando observamos as manifestações públicas dos jogadores de religiosidade antes e depois das partidas, como orações coletivas, declarações de agradecimento a Deus e até as justificativas pelas derrotas não ficam apenas na análise do jogo, sempre vem acompanhadas do que alguns filósofos da argumentação denominam de 'falácia do argumento divinizado', isto é, quando uma decisão ou acontecimento é justificado exclusivamente pela vontade divina, tornando a discussão imune a qualquer contestação racional.

A propósito, a entrevista concedida por Endrick após a derrota para a Noruega e justificando o gol perdido, corrobora a “Falácia do Argumento Divinizado”. Disse o atacante: “Foi um momento em que eu poderia ter feito melhor. Não consegui, mas agradeço a Deus pela oportunidade1

Neste contexto, vale ressaltar também que nessas entrevistas e até na vida pessoal desses “Atletas em Cristo”, há uma presença forte da Teologia da Prosperidade das Igrejas Neopentecostais que, como se sabe, foca no individualismo ao enfatizar experiências místicas exclusivamente individuais e vitórias pessoais imediatas e nunca no coletivo.

Aliás, nesse sentido o Padre Jesuíta, Bruno Franquelli, trouxe essa discussão à baila com uma argumentação bem fundamentada e que nos leva a refletir sobre esse tema: Diz o Padre: “..Depois da eliminação do Brasil, o jornal britânico, The Times publicou um debate que está crescendo. Será que a mudança religiosa entre os jogadores também mudou a identidade da nossa seleção? Essa pergunta me lembrou imediatamente de Max Weber, este sociólogo que mostrou que o protestantismo ajudou a construir uma ética baseada na responsabilidade individual, na disciplina e na relação direta entre o indivíduo e Deus. Essa visão fortalece a autonomia pessoal e os méritos individuais...Essa é a minha hipótese, que essa é uma mudança cultural que também está chegando no futebol. Quando o valor central de uma cultura passa para um indivíduo, isso pode influenciar na maneira como o grupo trabalha, coopera e se sacrifica pelo coletivo. O futebol brasileiro sempre foi reconhecido pelo jogo coletivo...É claro que uma religião não pode explicar tudo, nem todo o desempenho da seleção. Mas como ensinou Max Weber, a religião molda valores, e valores moldam comportamentos até mesmo no campo de futebol...Talvez seja preciso olhar para a cultura que está formando essa geração de jogadores2

Nesse mesmo sentido, o historiador brasileiro André Pagliarini, da Universidade Estadual da Louisiana, que foi ouvido pelo jornal The Times, disse “que o crescimento do neopentecostalismo ajudou a impulsionar mudanças estruturais na sociedade brasileira que também chegaram ao futebol….Segundo ele, as grandes seleções brasileiras surgiram em uma cultura que valorizava o coletivo acima do indivíduo, característica que estaria sendo enfraquecida paralelamente ao crescimento de correntes religiosas mais voltadas para a experiência individual...3”.

Por fim, citamos o jornalista da República Dominicana Elvin Calvino que , escreveu: “O futebol brasileiro tinha uma identidade enraizada na exuberância, festividade e colorido de uma cultura nascida do sincretismo entre o catolicismo e tradições religiosas de origem africana. Quando o Brasil dominava a Copa do Mundo, os jogadores chegavam aos estádios cantando samba e tocando tambores afro-brasileiros. Sua forma de jogar em campo era simplesmente uma extensão da celebração...Hoje, no entanto, os jogadores do Brasil são em sua maioria evangélicos. E o evangelicalismo—dadas suas raízes dispensacionalistas e escatologia rígida—rejeita todas as formas de sincretismo e diversidade. Em outras palavras, põe fim ao “futebol como celebração...Agora, tocar tambores e invocar os santos do sincretismo afro-brasileiro é visto como obra do diabo; é desaprovado. Eles se tornaram sombrios, regimentados e previsíveis—tanto em suas vidas pessoais quanto em campo4”.

Dito tudo isso, o fato é que a Seleção brasileira fracassou mais uma vez e vamos completar na próxima Copa do Mundo, vinte e oito anos sem conquistar esse Torneio. As análises sobre essas derrotas são muitas, passando pela abjeta politicagem da CBF, ciclos mal feitos, globalização do esporte, profissionalização precoce dos atletas, mudanças no comportamento da sociedade brasileirae por que não, esse crescimento do Movimento Evangélico no meio dos “Atletas de Cristo”. Mas independentemente de concordarmos ou não com essa última hipótese, o debate suscitado por jornalistas, historiadores e estudiosos revela que o futebol brasileiro talvez esteja refletindo mudanças culturais profundas vividas pela sociedade. Ignorar essa discussão seria abrir mão de compreender um dos aspectos da transformação da identidade do futebol  brasileiro. 



























1Fonte: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/jornal-britanico-associa-avanco-evangelico-ao-declinio-do-futebol-brasileiro/
2Fonte: https://www.instagram.com/reel/DaqtfgXNZ9m/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=MzRlODBiNWFlZA==
3Fonte:https://www.diariodocentrodomundo.com.br/jornal-britanico-associa-avanco-evangelico-ao-declinio-do-futebol-brasileiro/
4Fonte: https://radiorirbrasil.com.br/2026/07/12/jornal-diz-sobre-a-selecao-brasileira/

segunda-feira, 6 de julho de 2026

A FIFA E A COPA DO MUNDO FORAM SUBJUGADAS PELO GOVERNO TRUMP

 

Por Odilon de Mattos Filho
É sabido por grande parte da população mundial que o futebol internacional é comandado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), fundada em 1904 e sediada em Zurique, na Suíça. A entidade regulamenta e supervisiona o futebol, o futsal e o futebol de areia em todo o mundo, além de ser responsável pela organização do maior evento esportivo do planeta: a Copa do Mundo. Trata-se de um torneio que deveria representar um momento de congraçamento entre os povos, mas que, no atual "padrão FIFA", vem se transformando cada vez mais em um grande negócio marcado pela exclusão social, por interesses econômicos e por conflitos políticos.

O mundo acompanha atualmente a 23ª edição da Copa do Mundo da FIFA. A competição é organizada conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá, tendo os Estados Unidos como sede principal. A grande diferença desta edição em relação às anteriores, entretanto, não está apenas no fato de possuir três países-sede, mas, sobretudo, na postura da FIFA, que, na minha avaliação, tem demonstrado crescente alinhamento aos interesses políticos do presidente Donald Trump.

Essa percepção ganhou força com a criação do chamado "Prêmio da Paz da FIFA", distinção concedida pela primeira vez ao presidente norte-americano. Segundo a justificativa apresentada pela entidade máxima do futebol mundial, a homenagem reconheceria as iniciativas diplomáticas de Trump voltadas à promoção da paz e da cooperação internacional.

Naturalmente, a premiação gerou controvérsias e levantou questionamentos acerca da crescente proximidade entre a FIFA e o governo dos Estados Unidos, além de suscitar dúvidas sobre a credibilidade da competição, preocupação que, ao longo do torneio, foi sendo reforçada por novos acontecimentos.

Como muitos acompanharam, esta Copa do Mundo, especialmente em sua principal sede, os Estados Unidos, ficou marcada por inúmeros episódios envolvendo delegações, atletas, árbitros e torcedores de países participantes, diante da omissão e da conivência da FIFA. Entre os casos noticiados estão o tratamento diferenciado dispensado à seleção do Irã e à sua torcida, a violência sofrida pelo árbitro somali Omar Artan, além de seleções submetidas a longos e rigorosos interrogatórios nos aeroportos norte-americanos, entre outros episódios já abordados em texto anterior.

Depois de todos esses acontecimentos, surgiu mais um episódio que, a meu ver, compromete a isonomia esportiva entre as seleções, coloca em xeque a legitimidade da FIFA e da própria competição e certamente vai  entrar para história como a maior vergonha do futebol mundial com a declarada intervenção de um presidente do país-sede na FIFA.

Na partida entre Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina, vencida pelos norte-americanos por 2 X 0, o atacante Folarin Balogun foi expulso com cartão vermelho pelo árbitro brasileiro Raphael Claus. Pelo regulamento da competição, a suspensão para a partida seguinte seria automática.

No entanto, encerrado o jogo, o presidente Donald Trump manifestou-se publicamente contra a expulsão e afirmou ter telefonado ao presidente da FIFA, Gianni Infantino, solicitando a revisão da punição, por considerá-la injusta. Segundo o próprio Trump, o pedido foi atendido. Em declaração pública, afirmou:  "Sim, eu pedi uma revisão à FIFA. Falei com um homem que é muito respeitado e, por acaso, seu nível de respeito aumentou dez vezes. Fui eu quem os fez fazer isso [mudar a decisão]. Não foi o Biden. O Biden estava dormindo. Obrigado à FIFA por fazer o certo e reverter uma grande injustiça."¹

Ao justificar sua posição, Trump também colocou em dúvida a atuação do árbitro brasileiro, afirmando: "O árbitro é um pouco suspeito, se você verificar seu passado... Eu não quero dizer isso porque não gosto de criar controvérsia, mas ele é muito suspeito. Se você quiser, eu vou te mostrar o passado dele. Ele tomou uma decisão em que ninguém acreditou. Mesmo os adversários disseram: 'Nós tivemos sorte.'"²

Após a decisão da FIFA de rever a punição aplicada ao atleta norte-americano, sucederam-se diversas manifestações públicas de críticas à entidade.

Em nota oficial, a CBF saiu em defesa do árbitro Raphael Claus, afirmando: "A CBF refuta qualquer insinuação que coloque em dúvida a integridade de Raphael Claus. Trata-se de um profissional exemplar, cuja carreira é amplamente respaldada por avaliações técnicas, desempenho consistente e confiança das principais competições nacionais e internacionais."³

A União das Associações Europeias de Futebol (UEFA) também criticou duramente a decisão da FIFA. Em seu comunicado, declarou: "Uma suspensão automática mínima de uma partida após um cartão vermelho não é uma opção discricionária e não requer decisão de um órgão competente para entrar em vigor."

A entidade acrescentou: "Esse princípio não pode ser submetido a exceções, muito menos no meio de um torneio em que vários outros jogadores estiveram na mesma situação e cumpriram normalmente suas suspensões. Quando a certeza das regras deixa de ser garantida por seus guardiões, a integridade do jogo está em risco e a credibilidade de uma competição é comprometida. Expressamos nossa incredulidade diante de uma decisão sem precedentes, incompreensível e injustificável."⁴

Já o técnico da Bélgica, Rudi Garcia, adversário dos Estados Unidos nas oitavas de final, ironizou a decisão ao afirmar: "Eu não sabia que 5 de julho era igual a 1º de abril na FIFA. É necessário lembrar nosso comunicado. Muito do que sinto está lá. Não estamos defendendo apenas a seleção ou a confederação da Bélgica; estamos defendendo o futebol, sua ética e sua história. É a primeira vez na história da Copa do Mundo que uma decisão como essa é tomada."⁵

Vale registrar, ainda, a observação do jornalista Jamil Chade, segundo a qual a única lembrança histórica de uma interferência política dessa natureza remete à Copa do Mundo de 1934, realizada na Itália fascista de Benito Mussolini. Naquele torneio, a influência do regime sobre a arbitragem comprometeu a credibilidade da competição e marcou negativamente a história do futebol mundial.

Esses episódios revelam semelhanças que merecem reflexão acerca da forma como governos autoritários procuram utilizar grandes eventos esportivos para fins políticos. Quando uma competição deixa de ser decidida exclusivamente dentro das quatro linhas e passa a sofrer interferências externas que relativizam a aplicação de seu próprio regulamento, enfraquecem-se os princípios da igualdade esportiva. Se decisões administrativas podem ser revistas em função da vontade política do governante do país-sede, a independência institucional da FIFA passa a ser questionada. Independentemente das preferências ideológicas de cada torcedor, preservar a autonomia das regras é condição indispensável para que a Copa do Mundo continue sendo reconhecida como a maior e mais respeitada competição do futebol mundial.

Dito tudo isso, um fato acabou se sobrepondo a todos esses episódios: dentro das quatro linhas o futebol mostrou que realmente é subversivo. No campo, instância máxima da competição onde a autoridade soberana é a bola, a justiça esportiva falou mais alto e decretou sua sentença: os Estados Unidos foram eliminados da Copa do Mundo ao serem goleados pela Bélgica por 4 a 1. Os belgas seguem na disputa, enquanto aos norte-americanos resta assistir, das arquibancadas, ao sucesso das demais seleções. No fim, prevaleceu o velho ditado da boleragem: "a bola pune".