Diante das barbáries cometidas pelo imperialismo do Norte — em especial na América do Sul — impressiona a atualidade dessa reflexão de Galeano.
É sabido que essa postura beligerante e esse falso comportamento de tutores do mundo dos EUA está diretamente ligada aos objetivos da Doutrina Monroe, formulada em 1823. Essa doutrina, aparentemente protetiva para as nações do hemisfério ocidental, serviu, na prática, como álibi para a interferência dos Estados Unidos nos países do continente. Tornou-se terreno fértil para consolidar uma cultura expansionista baseada na pilhagem e em mecanismos de espoliação. E essa conduta ganha mais visibilidade com o segundo governo de Donald Trump e suas incursões mundo afora, em especial na América do Sul.
Sabe-se que o Brasil é o principal país Sul-americano, considerando sua dimensão territorial e populacional — ou seja, um enorme mercado consumidor — além de suas vastas riquezas naturais. Esses fatores, por si só, despertam a cobiça dos mercados internacionais e das potências imperialistas, em particular dos Estados Unidos.
Partindo dessa premissa, há basicamente duas formas históricas de efetivar essa cobiça sobre nossas riquezas: por meio da intervenção militar ou pela condescendência de governos subalternos. A segunda hipótese, neste momento, parece improvável diante do discurso firme do governo Lula em defesa da soberania nacional.
No entanto, estamos em um ano eleitoral, e as pesquisas de opinião apontam para uma nítida divisão ideológica no país: de um lado, setores progressistas que apoiam o governo Lula; de outro, uma oposição alinhada à extrema-direita.
É evidente que os Estados Unidos encabeçam essa cobiça pelas riquezas brasileiras. O governo de Donald Trump, atento a esse cenário, teria interesse direto nas eleições brasileiras, dada sua afinidade ideológica com a extrema-direita nacional e com governos alinhados na região.
Não há dúvida de que o Brasil se tornou alvo prioritário de setores da extrema-direita mundial. E, por mais paradoxal que pareça, parte significativa da extrema-direita brasileira encontra-se profundamente comprometida com interesses internacionais, especialmente os dos Estados Unidos. Hoje, já não se percebe qualquer projeto nacional consistente por parte do bolsonarismo, principal vertente da extrema-direita.
Nesse contexto, chama atenção o grau de ousadia desses setores. Informações veiculadas pela imprensa indicam que os Estados Unidos, por meio da Câmara Americana de Comércio para o Brasil, estariam organizando eventos em São Paulo, sem a participação do governo federal, para discutir minerais críticos em território brasileiro. Há também relatos de que o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, teria firmado entendimentos com representantes norte-americanos sobre a exploração de terras raras no estado.
Tais iniciativas, se confirmadas, afrontam diretamente a Constituição Federal (artigos 20, 21 e 176), que estabelece o controle estratégico desses recursos pela União. Ainda assim, como aponta o deputado federal Glauber Braga, a estratégia adotada seria a da “política do fato consumado”: avançar na apropriação e, posteriormente, transferir a disputa para o campo jurídico, quando os efeitos já estiverem consolidados, e aí, "Inês é morta". Trata-se de uma velha e conhecida política de pressão.
Não se pode ignorar, também, que a extrema-direita brasileira tem utilizado de maneira muito eficaz a chamada guerra cultural e nossa herança maniqueísta para impor suas narrativas, levando milhões de brasileiros a uma dissonância cognitiva coletiva sem precedentes na história do país.
Nesse sentido, não se pode esquecer, por exemplo, da continência prestada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro à bandeira dos Estados Unidos, dos apelos para que o governo Trump elevasse tarifas sobre produtos brasileiros exportados para aquele país e até mesmo de manifestações que chegaram a pedir intervenção militar estrangeira no Brasil.
Nesse contexto, escreveu o jornalista Jamil Chade que “a extrema-direita latino-americana e o governo de Donald Trump iniciam uma ofensiva contra o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, no que está sendo interpretado como um ensaio geral para uma ingerência nas eleições brasileiras".
Segundo Jamil Chade, atos recentes nos Estados Unidos, na Argentina e no Chile acenderam o alerta no Palácio do Planalto e no Ministério das Relações Exteriores sobre uma articulação que poderia buscar desestabilizar o processo eleitoral brasileiro. Nesse cenário, a ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas teria sido interpretada por setores ultraconservadores como um sinal de viabilidade eleitoral, mesmo diante da condenação de Jair Bolsonaro.
Corroborando essa interpretação — e talvez como parte de uma estratégia —, vale lembrar que, passados mais de um ano da posse de Donald Trump, os Estados Unidos ainda não possuem embaixador em Brasília. Isso abre espaço para interlocuções paralelas, fora dos canais diplomáticos tradicionais.
Aproveitando-se dessa situação atípica, o governo Trump tentou enviar ao Brasil um de seus representantes mais extremistas, Darren Beattie, ideólogo de extrema-direita próximo ao clã Bolsonaro e responsável por supervisionar assuntos relacionados ao país.
Segundo informações divulgadas, esse assessor pretendia visitar, na chamada “Papudinha”, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado pelo STF, além de manter contatos com autoridades do Judiciário, como o futuro presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Cássio Nunes Marques.
Esses movimentos geraram forte mal-estar no governo Lula e no Itamaraty, uma vez que o pedido de visto teria omitido deliberadamente essas intenções. Diante disso, o governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores e em um gesto de afirmação da soberania nacional, cancelou o visto de Darren Beattie.
Esse episódio constitui apenas um exemplo das possíveis intenções intervencionistas de setores da extrema-direita internacional no processo eleitoral brasileiro de 2026. Caso não consigam eleger um presidente alinhado aos seus interesses, não se pode descartar a tentativa de justificar outras formas de pressão ou intervenção, inclusive sob o pretexto do combate ao terrorismo ou ao narcotráfico.
Por essas razões, todo cuidado é pouco. Não há espaço para descuido. Os sinais de articulação da extrema-direita latino-americana e de setores do governo Trump contra o Brasil exigem vigilância permanente. Cabe ao governo e às instituições republicanas estabelecer como prioridade absoluta a preservação da integridade do processo eleitoral brasileiro, impedindo, com todos os instrumentos legais e institucionais disponíveis, qualquer tentativa de ingerência externa nas eleições de 2026.
O sinal amarelo está aceso!