domingo, 4 de janeiro de 2026

O ESPÍRITO DE SIMÓN BOLÍVAR PAIRA SOBRE A VENEZUELA



Por: Odilon de Mattos

No dia 17 de dezembro de 2025 publicamos, neste espaço, um texto no qual analisamos e buscamos projetar os possíveis desdobramentos das manobras militares dos imperialistas do Norte no Mar do Caribe. À época, sustentamos que tais ações tinham como objetivo coagir a Venezuela, provocar uma crise política e desestabilizar o governo do presidente Nicolás Maduro, abrindo caminho para sua derrubada e para a apropriação, pelos Estados Unidos, das maiores reservas de petróleo do mundo, além de outras riquezas naturais pertencentes ao povo venezuelano.

Passados apenas 17 dias daquela análise, o mundo foi sacudido pela notícia de mais uma barbárie cometida pelo presidente Donald Trump contra o povo venezuelano. Em 3 de janeiro de 2026, Trump afirmou publicamente que os Estados Unidos teriam realizado um ataque de grande escala contra a Venezuela e que o presidente Nicolás Maduro fora capturado, juntamente com sua esposa, sendo retirado do país por via aérea. Tal declaração configura, na prática, o sequestro de um chefe de Estado em pleno exercício de seu mandato — uma ação flagrantemente ilegal sob a ótica do Direito Internacional.

A justificativa apresentada por Trump para essa suposta “captura” foi a acusação de que o presidente Maduro chefiaria um cartel de drogas e estaria envolvido em atos de terrorismo. Na visão estreita, seletiva e profundamente hipócrita da extrema-direita mundial, essa ação seria parte da política de combate ao narcotráfico levada a cabo pelos Estados Unidos. Contudo, aqui se estabelece um evidente paradoxo. Em dezembro de 2025, o próprio Trump concedeu indulto ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por tráfico de drogas, após ter sido responsabilizado por facilitar o envio de mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos. Dois pesos, duas medidas: como justificar esse perdão diante de uma proclamada cruzada contra os narcotraficantes?

Posteriormente, em entrevista coletiva, de forma cínica e sádica, Trump declarou ter assistido ao vivo à captura de Maduro, comparando o ato a “um programa de televisão”. Em seguida, afirmou: “Nós vamos administrar o país até o momento em que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, acrescentando ainda que os Estados Unidos passariam a estar fortemente envolvidos com a indústria petrolífera da Venezuela.

Na mesma linha autoritária, expansionista e imperialista, o chefe do Departamento de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou expressamente, na página oficial da pasta, que os Estados Unidos pretendem “limpar e erradicar todas as ameaças do nosso quintal” (our backyard). A expressão não é casual: ela explicita a visão de que a América Latina constitui uma esfera de influência direta e estratégica dos EUA, onde se arrogam o direito de intervir para proteger seus interesses e sua chamada “segurança nacional”. Trata-se de mais uma referência direta à Doutrina Monroe, comprovando, como já apontamos no texto anterior, que Trump busca reeditá-la como instrumento explícito de ameaça e dominação.

Quanto ao covarde ato contra a Venezuela, é praticamente unânime, nos meios acadêmico e jurídico internacionais, o entendimento de que essa barbárie cometida por Donald Trump configura um ataque frontal ao Direito Internacional, aos tratados multilaterais e até mesmo à própria Constituição dos Estados Unidos. Ao agir dessa forma, Trump, dentro da lógica imperial, tenta impor abertamente uma política baseada na intimidação e na coerção, em detrimento da civilidade, do respeito às normas internacionais e do multilateralismo cooperativo.

No entanto, para além das questões jurídicas e das manifestações de alguns chefes de Estado e governos ao redor do mundo, um fato de extrema relevância vem ocorrendo na Venezuela — especialmente em sua capital, Caracas — após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, e que tem sido deliberadamente ocultado pela grande mídia internacional.

Como bem observou o jornalista investigativo independente Pepe Escobar, após a retirada forçada de Maduro do país, a Presidência da República ficou formalmente vaga. Contudo, de maneira imediata, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela tomou uma decisão histórica: declarou a ausência involuntária do presidente e transferiu, de forma constitucional, todos os poderes presidenciais à vice-presidenta Delcy Rodríguez. Trata-se da primeira mulher a assumir interinamente a Presidência da Venezuela, não por meio de eleições, mas como resultado de um ato de resistência institucional frente à maior operação de mudança de regime desde a invasão do Panamá, em 1989. Não foi um golpe, mas um antigolpe — uma manobra jurídica que deixou Washington em completo estado de choque¹.

A primeira declaração da presidenta Delcy Rodríguez foi, simbolicamente, um reencontro com o espírito de Simón Bolívar: “A Venezuela não será colônia de nenhum outro país”.

Com essa afirmação, Delcy resgatou mais de duzentos anos de luta anticolonial do povo venezuelano e a coragem do Libertador.

Em resposta à declaração de Trump de que os Estados Unidos administrariam o país, a presidenta foi direta e firme: “O senhor Trump pode governar seus campos de golfe. A Venezuela será governada pelos venezuelanos”.

Segundo Pepe Escobar, diversas ações e estratégias foram imediatamente implementadas pela presidenta Delcy Rodríguez para proteger o povo venezuelano do saque planejado pelos imperialistas do Norte. Destacamos aqui algumas dessas medidas, recomendando ao leitor o acesso direto ao material de Escobar para informações mais detalhadas.

Logo após assumir a Presidência, Delcy foi à televisão nacional e transmitiu a última mensagem enviada por Maduro antes de ser sequestrado: “Povo às ruas, milícias em movimento, todos os planos em ação”.

Essa mensagem, veiculada em 4 de janeiro de 2026, ativou uma rede de cerca de 4,5 milhões de milicianos populares — trabalhadores, donas de casa, estudantes e aposentados — que conhecem cada rua, cada viela e cada território de suas comunidades.

Em Maracaibo, berço da indústria petrolífera venezuelana, refinarias passaram a adotar protocolos de defesa patrimonial, incluindo a paralisação controlada das instalações caso tropas estrangeiras tentem ocupá-las.

Nas primeiras 30 horas após o sequestro de Maduro, cerca de 500 assembleias populares foram realizadas em Caracas, com o objetivo de coordenar o que passou a ser chamado de “resistência bairro por bairro”. Não se trata de guerrilha urbana convencional, mas de organização popular baseada em greves rotativas, paralisações comerciais, sabotagens não violentas de infraestrutura e na criação de redes paralelas de comunicação, transformando qualquer tentativa de ocupação em um pesadelo logístico para os invasores.

Nesse mesmo período, foi implementada uma estratégia de negação econômica: o controle das principais reservas petrolíferas foi transferido para conselhos locais, impedindo que empresas estrangeiras, mesmo sob ocupação militar, consigam explorar uma única gota de petróleo sem a cooperação dos técnicos venezuelanos.

Outro passo decisivo foi a ativação do sistema financeiro paralelo desenvolvido ao longo de anos de sanções. Em apenas 30 horas, as transações governamentais fundamentais migraram para plataformas baseadas no yuan chinês e no rublo russo, reduzindo drasticamente a dependência do dólar. Trata-se de um dos primeiros experimentos de desdolarização de emergência da história recente.

Em sua análise, Pepe Escobar destaca que Delcy Rodríguez conseguiu transformar uma tentativa de decapitação política em uma oportunidade de radicalização democrática. Em vez de centralizar o poder, optou por descentralizá-lo ainda mais, transferindo atribuições executivas aos conselhos comunais, fortalecendo as assembleias populares e instituindo o que denominou de “presidência distribuída” — um sistema no qual a autoridade depende da legitimação permanente das bases populares. Uma experiência política sem precedentes na América Latina contemporânea.

Não temos dúvidas de que essas e outras medidas, implementadas com rapidez pela presidenta Delcy Rodríguez  - e que foram devidamente omitidas pela grande mídia - caíram como uma bomba na Casa Branca e deixaram claro para Donald Trump que a Venezuela não é o Iraque de 2003 — um país artificialmente fragmentado por divisões sectárias e tribais. A Venezuela é uma nação soberana, cujo povo possui raízes históricas profundas, solidamente fincadas na figura do grande líder Simón Bolívar e em seus ideais de independência, liberdade e unidade sul-americana, pilares fundamentais da identidade nacional venezuelana.

No entanto, fica igualmente evidente que, mesmo com essas medidas, a situação na Venezuela permanece extremamente grave e ainda muito favorável aos interesses dos Estados Unidos, sobretudo quando se considera a permanente coação e chantagem exercidas por meio de seu poderio bélico.

Diante de tudo isso, resta-nos aguardar os desdobramentos de mais essa barbárie cometida pelo imperialismo norte-americano, que, diga-se de passagem, historicamente recorre à guerra como mecanismo de sobrevivência, evidenciando, mais uma vez, a crise estrutural e terminal do capitalismo.

O caso da Venezuela é emblemático para nós, latino-americanos. Por essa razão, impõe-se novamente o alerta: o momento exige consciência, firmeza e ação coletiva. A história da América Latina não permite neutralidade. Torna-se fundamental fortalecer a unidade regional, a resistência e a articulação do Sul Global diante das evidentes ameaças à nossa soberania. Ou nos unimos para enfrentar as investidas do Norte, ou seremos condenados a repetir um passado marcado pela violência e pela submissão, como bem retratou o grande escritor uruguaio Eduardo Galeano:
“Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia; nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza, para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos.”





















































































































































Fonte: 1- https://youtu.be/tWCHvmldk6g




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