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terça-feira, 9 de junho de 2026

A COPA DA FIFA OU A COPA DE DONALD TRUMP?


 Por Odilon de Mattos Filho:

É consenso que o futebol é um dos esportes mais populares do mundo e um dos maiores mobilizadores de questões socioculturais e políticas, especialmente no Brasil.

Na esfera internacional, o futebol é comandado pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), fundada em 1904 e sediada em Zurique, na Suíça. A entidade regulamenta e supervisiona o futebol, o futsal e o futebol de areia em todo o mundo, além de ser responsável pela organização do maior evento esportivo do planeta: a Copa do Mundo. Um torneio que deveria representar um momento de congraçamento entre os povos, mas que, no atual "padrão FIFA", tem se transformado cada vez mais em um grande negócio marcado pela exclusão e por conflitos de interesses.

O orçamento financeiro da FIFA é estruturado em ciclos de quatro anos. Estima-se que, no ciclo de 2023 a 2026, a receita da entidade alcance um recorde superior a US$ 11 bilhões, enquanto o orçamento global de despesas operacionais da Copa do Mundo de 2026 está estimado em US$ 3,75 bilhões.

Na organização das Copas do Mundo, a FIFA costuma se agigantar e, muitas vezes, chega a impor uma espécie de legislação própria aos países-sede. Muitos brasileiros ainda se lembram da expressão "padrão FIFA", amplamente utilizada durante a preparação para a Copa de 2014. Nossos tradicionais estádios populares foram transformados em modernas arenas e o futebol brasileiro passou por um intenso processo de financeirização. Foi mais uma demonstração de como a lógica do mercado se apropria do esporte mais popular do planeta.

Naquele período, difundiu-se a ideia da chamada "arenização". Segundo seus defensores, a substituição dos antigos estádios por arenas modernas proporcionaria mais conforto e segurança aos torcedores. Embora esses objetivos sejam legítimos e desejáveis, o resultado prático também foi uma profunda exclusão social. O futebol brasileiro tornou-se mais elitizado, uma vez que os elevados preços dos ingressos passaram a afastar grande parte da população dos estádios, restringindo o acesso a uma parcela mais abastada dos torcedores.

Passados 12 anos da Copa do Mundo realizada no Brasil, chega, com toda pompa e circunstância, a Copa do Mundo de 2026, organizada por Estados Unidos, México e Canadá, tendo os Estados Unidos como sede principal. Desta vez, porém, diferentemente do que ocorreu no Brasil, a FIFA se apresenta ao mundo como uma entidade totalmente submissa aos desejos do presidente Donald Trump.

Essa postura começou a ficar evidente com a criação do chamado "Prêmio da Paz da FIFA", distinção concedida pela primeira vez ao presidente norte-americano. Segundo a justificativa apresentada, a homenagem teria sido um reconhecimento por suas iniciativas diplomáticas voltadas para a promoção da paz e da cooperação internacional. A premiação gerou controvérsias e levantou questionamentos sobre a crescente proximidade entre a entidade máxima do futebol e o governo dos Estados Unidos.

A partir daí, sucederam-se diversos episódios envolvendo delegações, atletas, árbitros e torcedores de países que participarão da Copa do Mundo, sem que a FIFA demonstrasse a firmeza que costuma adotar em outras circunstâncias.

O primeiro caso envolve o Irã. O país conquistou sua vaga na Copa do Mundo dentro de campo, assim como a grande maioria das seleções participantes. No entanto, os Estados Unidos alegaram não poder garantir plenamente a segurança da delegação iraniana em seu território. Além disso, houve demora na emissão dos vistos para integrantes da delegação, o que acabou levando à transferência de sua base para Tijuana, no México.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, os jogadores iranianos também terão de entrar e sair dos Estados Unidos no mesmo dia das partidas, realizando viagens de ida e volta em jornadas extremamente desgastantes, situação que, evidentemente, compromete a isonomia esportiva entre as seleções.

Ainda em relação ao Irã, surgiu outra controvérsia envolvendo os torcedores. A Federação de Futebol da República Islâmica do Irã (FFIRI) afirmou que sua cota de ingressos para a Copa do Mundo foi retirada poucos dias antes do início da competição. A medida foi considerada arbitrária pelas autoridades esportivas iranianas e causou prejuízos aos torcedores que planejavam acompanhar a seleção.

Se isso não bastasse, Omar Artan, da Somália, considerado um dos mais respeitados árbitros do continente africano e escalado para atuar na Copa do Mundo, não conseguiu ingressar nos Estados Unidos, tendo sido barrado pelas autoridades migratórias sem justificativas amplamente esclarecidas.

A reação do governo somali foi imediata. Ciise Aden Abshir, assessor do Ministério da Juventude e Esportes da Somália, declarou:

"Artan é um dos árbitros mais respeitados da África. Impedi-lo de entrar nos Estados Unidos e de exercer sua função prejudica não apenas sua carreira, mas também os princípios de equidade, mérito, imparcialidade e fair play que deveriam orientar o futebol internacional."

Diante das críticas, a FIFA limitou-se a afirmar que não interfere nos processos migratórios conduzidos pelos países-sede.

Os problemas não se limitaram às delegações e à arbitragem. O atacante iraquiano Aymen Hussein, uma das principais estrelas de sua seleção, foi submetido a um longo interrogatório ao desembarcar nos Estados Unidos. Também foram relatadas dificuldades enfrentadas por profissionais da imprensa ligados à delegação iraquiana, o que ampliou as críticas sobre o tratamento dispensado a determinados países.

Diante desses acontecimentos, a questão central não é apenas Donald Trump. O que está em debate é a postura da FIFA diante do poder político e econômico. Quando os interesses da entidade exigiram mudanças profundas em países como Brasil, África do Sul e Catar, a FIFA não hesitou em exercer toda a sua influência e impor suas condições. Entretanto, diante das decisões unilaterais do governo dos Estados Unidos, a entidade parece ter abdicado da autonomia que sempre reivindicou.

A Copa do Mundo deveria ser um espaço de integração entre povos e culturas. Quando barreiras políticas, discriminações e restrições seletivas passam a determinar quem pode participar plenamente do evento, o futebol perde parte de sua essência universal. E, quando a FIFA aceita passivamente tais limitações, coloca em xeque não apenas sua independência institucional, mas também os valores que afirma defender.

Por outro lado, ou seja, quanto ao governo dos EUA, vale citar parte do texto do grande jornalista, Leonardo Sakamoto que com brilhantismo descreveu o que representa essa Copa para o presidente dos EUA: “Trump quer a Copa como peça de sua agenda dos 250 anos da independência americana [e como propaganda para as Eleições de novembro 2026]. O mundial é para ele um troféu de prestígio internacional. O problema é que troféus não jogam futebol. Árbitros africanos, atacantes iraquianos e meias haitianos, sim. Mas esses, ao que tudo indica, não têm a origem ou a cor certas”.