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domingo, 4 de janeiro de 2026

O ESPÍRITO DE SIMÓN BOLÍVAR PAIRA SOBRE A VENEZUELA



Por: Odilon de Mattos

No dia 17 de dezembro de 2025 publicamos, neste espaço, um texto no qual analisamos e buscamos projetar os possíveis desdobramentos das manobras militares dos imperialistas do Norte no Mar do Caribe. À época, sustentamos que tais ações tinham como objetivo coagir a Venezuela, provocar uma crise política e desestabilizar o governo do presidente Nicolás Maduro, abrindo caminho para sua derrubada e para a apropriação, pelos Estados Unidos, das maiores reservas de petróleo do mundo, além de outras riquezas naturais pertencentes ao povo venezuelano.

Passados apenas 17 dias daquela análise, o mundo foi sacudido pela notícia de mais uma barbárie cometida pelo presidente Donald Trump contra o povo venezuelano. Em 3 de janeiro de 2026, Trump afirmou publicamente que os Estados Unidos teriam realizado um ataque de grande escala contra a Venezuela e que o presidente Nicolás Maduro fora capturado, juntamente com sua esposa, sendo retirado do país por via aérea. Tal declaração configura, na prática, o sequestro de um chefe de Estado em pleno exercício de seu mandato — uma ação flagrantemente ilegal sob a ótica do Direito Internacional.

A justificativa apresentada por Trump para essa “captura” foi a acusação de que o presidente Maduro chefiaria um cartel de drogas e estaria envolvido em atos de terrorismo. Na visão estreita, seletiva e profundamente hipócrita da extrema-direita mundial, essa ação seria parte da política de combate ao narcotráfico levada a cabo pelos Estados Unidos. Contudo, aqui se estabelece um evidente paradoxo. Em dezembro de 2025, o próprio Trump concedeu indulto ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por tráfico de drogas, após ter sido responsabilizado por facilitar o envio de mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos. Dois pesos, duas medidas: como justificar esse perdão diante de uma proclamada cruzada contra os narcotraficantes?

Aliás, essa pseuda justificativa da Casa Branca - assim como tantas outras, nos fazem lembrar de uma frase do brilhante escritor moçambicano, Mia Couto que diz: “Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para fabricar inimigos é imperioso se sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que em segredo tomam decisões em nossos nomes”

Posteriormente, em entrevista coletiva, de forma cínica e sádica, Trump declarou ter assistido ao vivo à captura de Maduro, comparando o ato a “um programa de televisão”. Em seguida, afirmou: “Nós vamos administrar o país até o momento em que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”, acrescentando ainda que os Estados Unidos passariam a estar fortemente envolvidos com a indústria petrolífera da Venezuela.

Na mesma linha autoritária, expansionista e imperialista, o chefe do Departamento de Estado dos EUA, Marco Rubio, afirmou expressamente, na página oficial da pasta, que os Estados Unidos pretendem “limpar e erradicar todas as ameaças do nosso quintal” (our backyard). A expressão não é casual: ela explicita a visão de que a América Latina constitui uma esfera de influência direta e estratégica dos EUA, onde se arrogam o direito de intervir para proteger seus interesses e sua chamada “segurança nacional”. Trata-se de mais uma referência direta à Doutrina Monroe, comprovando, como já apontamos no texto anterior, que Trump busca reeditá-la como instrumento explícito de ameaça e dominação.

Quanto ao covarde ato contra a Venezuela, é praticamente unânime, nos meios acadêmico e jurídico internacionais, o entendimento de que essa barbárie cometida por Donald Trump configura um ataque frontal ao Direito Internacional, aos tratados multilaterais e até mesmo à própria Constituição dos Estados Unidos. Ao agir dessa forma, Trump, dentro da lógica imperial, tenta impor abertamente uma política baseada na intimidação e na coerção, em detrimento da civilidade, do respeito às normas internacionais e do multilateralismo cooperativo.

No entanto, para além das questões jurídicas e das manifestações de alguns chefes de Estado e governos ao redor do mundo, um fato de extrema relevância vem ocorrendo na Venezuela — especialmente em sua capital, Caracas — após o sequestro do presidente Nicolás Maduro, e que tem sido deliberadamente ocultado pela grande mídia internacional.

Como bem observou o jornalista investigativo independente Pepe Escobar, após a retirada forçada de Maduro do país, a Presidência da República ficou formalmente vaga. Contudo, de maneira imediata, o Tribunal Supremo de Justiça da Venezuela tomou uma decisão histórica: declarou a ausência involuntária do presidente e transferiu, de forma constitucional, todos os poderes presidenciais à vice-presidenta Delcy Rodríguez. Trata-se da primeira mulher a assumir interinamente a Presidência da Venezuela, não por meio de eleições, mas como resultado de um ato de resistência institucional frente à maior operação de mudança de regime desde a invasão do Panamá, em 1989. Não foi um golpe, mas um antigolpe — uma manobra jurídica que deixou Washington em completo estado de choque¹.

A primeira declaração da presidenta Delcy Rodríguez foi, simbolicamente, um reencontro com o espírito de Simón Bolívar: “A Venezuela não será colônia de nenhum outro país”.

Com essa afirmação, Delcy resgatou mais de duzentos anos de luta anticolonial do povo venezuelano e a coragem do Libertador.

Em resposta à declaração de Trump de que os Estados Unidos administrariam o país, a presidenta foi direta e firme: “O senhor Trump pode governar seus campos de golfe. A Venezuela será governada pelos venezuelanos”.

Segundo Pepe Escobar, diversas ações e estratégias foram imediatamente implementadas pela presidenta Delcy Rodríguez para proteger o povo venezuelano do saque planejado pelos imperialistas do Norte. Destacamos aqui algumas dessas medidas, recomendando ao leitor o acesso direto ao material de Escobar para informações mais detalhadas.

Logo após assumir a Presidência, Delcy foi à televisão nacional e transmitiu a última mensagem enviada por Maduro antes de ser sequestrado: “Povo às ruas, milícias em movimento, todos os planos em ação”.

Essa mensagem, veiculada em 4 de janeiro de 2026, ativou uma rede de cerca de 4,5 milhões de milicianos populares — trabalhadores, donas de casa, estudantes e aposentados — que conhecem cada rua, cada viela e cada território de suas comunidades.

Em Maracaibo, berço da indústria petrolífera venezuelana, refinarias passaram a adotar protocolos de defesa patrimonial, incluindo a paralisação controlada das instalações caso tropas estrangeiras tentem ocupá-las.

Nas primeiras 30 horas após o sequestro de Maduro, cerca de 500 assembleias populares foram realizadas em Caracas, com o objetivo de coordenar o que passou a ser chamado de “resistência bairro por bairro”. Não se trata de guerrilha urbana convencional, mas de organização popular baseada em greves rotativas, paralisações comerciais, sabotagens não violentas de infraestrutura e na criação de redes paralelas de comunicação, transformando qualquer tentativa de ocupação em um pesadelo logístico para os invasores.

Nesse mesmo período, foi implementada uma estratégia de negação econômica: o controle das principais reservas petrolíferas foi transferido para conselhos locais, impedindo que empresas estrangeiras, mesmo sob ocupação militar, consigam explorar uma única gota de petróleo sem a cooperação dos técnicos venezuelanos.

Outro passo decisivo foi a ativação do sistema financeiro paralelo desenvolvido ao longo de anos de sanções. Em apenas 30 horas, as transações governamentais fundamentais migraram para plataformas baseadas no yuan chinês e no rublo russo, reduzindo drasticamente a dependência do dólar. Trata-se de um dos primeiros experimentos de desdolarização de emergência da história recente.

Em sua análise, Pepe Escobar destaca que Delcy Rodríguez conseguiu transformar uma tentativa de decapitação política em uma oportunidade de radicalização democrática. Em vez de centralizar o poder, optou por descentralizá-lo ainda mais, transferindo atribuições executivas aos conselhos comunais, fortalecendo as assembleias populares e instituindo o que denominou de “presidência distribuída” — um sistema no qual a autoridade depende da legitimação permanente das bases populares. Uma experiência política sem precedentes na América Latina contemporânea.

Não temos dúvidas de que essas e outras supostas medidas, implementadas com rapidez pela presidenta Delcy Rodríguez - e que foram devidamente omitidas pela grande mídia - caíram como uma bomba na Casa Branca e deixaram claro para Donald Trump que a Venezuela não é o Iraque de 2003 — um país artificialmente fragmentado por divisões sectárias e tribais. A Venezuela é uma nação soberana, cujo povo possui raízes históricas profundas, solidamente fincadas na figura do grande líder Simón Bolívar e em seus ideais de independência, liberdade e unidade sul-americana, pilares fundamentais da identidade nacional venezuelana.

Por outro lado, não se descarta também, a possibilidade de que a presidenta Delcy esteja conversando e até negociando com o governo Trump como estratégia para ganhar tempo até que os organismos intencionais tomem alguma medida contra os EUA e reestabeleça a normalidade na Venezuela, inclusive, com a soltura do presidente Maduro.

No entanto, fica igualmente evidente que, mesmo com essas medidas, a situação na Venezuela permanece extremamente grave e ainda muito favorável aos interesses dos Estados Unidos, sobretudo quando se considera a permanente coação e pressão exercidas por meio de seu poderio bélico e até a utilização da vida do presidente Maduro como instrumento de chantagem e como bem afirmou o professor Leonardo Trevisan "é o retorno da paz pela força"!

Diante de tudo isso, resta-nos aguardar os desdobramentos de mais essa barbárie cometida pelo imperialismo norte-americano, que, diga-se de passagem, historicamente recorre à guerra como mecanismo de sobrevivência, evidenciando, mais uma vez, a crise estrutural e terminal do capitalismo.

O caso da Venezuela é emblemático para nós, latino-americanos. Por essa razão, impõe-se novamente o alerta: o momento exige consciência, firmeza e ação coletiva. A história da América Latina não permite neutralidade. Torna-se fundamental fortalecer a unidade regional, a resistência e a articulação do Sul Global diante das evidentes ameaças à nossa soberania. Ou nos unimos para enfrentar as investidas do Norte, ou seremos condenados a repetir um passado marcado pela violência e pela submissão, como bem retratou o grande escritor uruguaio Eduardo Galeano: “Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia; nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza, para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos.”























































































































































Fonte: 1- https://youtu.be/tWCHvmldk6g




quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

A REEDIÇÃO DA DOUTRINA MONROE COMO INSTRUMENTO DE DOMINAÇÃO


"Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros: os impérios e seus agentes nativos" (Eduardo Galeano).

Mais precisamente após o fim da chamada Guerra Fria, os EUA se arvoraram tutores do mundo e, convictos disso, foram impondo essa posição à maioria dos países e organismos multilaterais, sempre sustentando a narrativa de defesa do seu povo e da democracia mundo afora.

Essa sanha está ligada aos objetivos da velha Doutrina Monroe, criada em 1823 pelo então presidente dos Estados Unidos, James Monroe, cujo objetivo declarado era “impedir a recolonização europeia na América”. Foi também um marco para reforçar a ideia do Destino Manifesto — a crença de que os EUA seriam chamados pela providência a liderar o continente — resumida na presunçosa frase: “América para os Americanos”.

Essa doutrina, aparentemente protetiva para as nações do Hemisfério Ocidental, serviu, na prática, como álibi para a interferência dos EUA nos países americanos, tornando-se terreno fértil para consolidar a cultura expansionista com a pilhagem e mecanismos de espoliação. O restante dessa história — marcada por golpes, invasões e ingerências — é amplamente conhecido.

Passados mais de 200 anos, surge em 05/12/2025 uma reedição da Doutrina Monroe. E, como era de se esperar, ela renasce sob um governo de extrema-direita comandado pelo presidente Donald Trump, com sua volúpia e empáfia de restaurar o papel dos EUA como centro incontestável do poder mundial e estabelecer Estados vassalos submetidos aos interesses de Washington. Como não poderia ser diferente, o documento traz a insolência como marca registrada do presidente, que intitulou a nova doutrina de “Corolário Trump à Doutrina Monroe”.

Essa nova Doutrina Monroe apresenta, de forma clara e peremptória, seus objetivos, deixando nítida também a forte presença do Deep State na formulação do documento. Trata-se de um texto que aborda todos os continentes e acusa, por exemplo, a Europa de bloquear um acordo de paz na Ucrânia. Prevê ainda o “reforço e fortalecimento da presença militar dos EUA na região oeste da Ásia”, onde está localizada Taiwan — maior produtora mundial de chips para modelos de IA (LLM) — num recado direto à China.

É evidente que essa nova estratégia de segurança nacional mira igualmente a América Latina, e particularmente a América do Sul, como principal foco geopolítico nas Américas. Diferentemente do discurso oficial, o alvo dos EUA não é o narcotráfico. O objetivo central — e isso está cristalino — são as riquezas naturais sul-americanas, como as terras raras brasileiras e o petróleo venezuelano. O documento deixa isso explícito ao afirmar que o Hemisfério Ocidental deve “permanecer livre de incursões estrangeiras hostis e da posse estrangeira de ativos essenciais, e que apoie cadeias de suprimentos críticas; queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos importantes”.

Corroborando essa interpretação, o respeitado jornalista Jamil Chade pontua: “pela primeira vez estamos lendo um documento que afirma explicitamente: nós, americanos, queremos o controle sobre a América Latina, e ponto final. São 33 páginas absolutamente claras sobre a estratégia dos EUA para serem hegemônicos no século XXI — e essa hegemonia passa por controlar a América Latina.”

O referido documento fala abertamente sobre a necessidade de militarizar a América do Sul para “expulsar potências estrangeiras” da região — leia-se: frear a influência europeia, chinesa e russa no Hemisfério Ocidental. Vai além: determina que o governo americano instruirá a CIA a identificar pontos estratégicos de recursos naturais na América Latina. Em outro trecho, afirma que os EUA querem ser “os únicos fornecedores de tecnologia” na região — isto é, monopolizar o setor tecnológico.

Embora o texto não mencione interferência direta na política interna dos países latino-americanos — o que nem seria necessário, dada a longa tradição de intervenções sempre que os interesses de Washington estão em jogo —, os exemplos recentes são eloquentes. A Operação Lava Jato, com seus desdobramentos geopolíticos, e a tentativa de coagir ministros do STF por meio da Lei Magnitsky — numa manobra evidente para tentar salvar Bolsonaro da prisão, fiel aliado de Donald Trump — revelam que essa prática permanece viva e operante.

Nesse contexto, vale destacar, ainda, que já estamos assistimos a novos movimentos de ingerência política em outras nações pela Casa Branca, tais como nas eleições de Honduras, nas legislativas da Argentina e mesmo no Chile, onde há denúncias de atuação do governo Trump nas eleições de 2025, em que a candidata de extrema-direita lidera as pesquisas no segundo turno. Some-se a isso o Prêmio Nobel da Paz concedido a María Corina Machado, com evidente ingerência norte-americana e os criminosos ataques as embarcações civis da Venezuela como parte de uma estratégia para desestabilizar o país e preparar a rendição e a substituição do presidente Maduro e chegar aao principal objetivo, apropriar das riquezas nnaturais da Venezuela, em especial, das maiores reservas de petróleo do mundo

No caso específico do Brasil, a posição do governo frente a esse documento da Casa Branca deve ser a continuada defesa da soberania nacional e regional. Outro ponto a destacar é o fato de que em 2026 teremos eleições, e é evidente o interesse do governo Trump na vitória de um campo político submisso aos seus objetivos. Para isso, não deve medir esforços para apoiar a direita e a extrema-direita. Caberá ao PT e ao campo progressista redobrarem sua atenção, o que implica, por exemplo, recuperar uma estratégia política baseada na experiência histórica da Frente Única de esquerda, operária e popular. Não há espaço para repetir erros, como a armadilha da Frente Ampla, cujos resultados estamos assistindo na relação do Congresso Nacional com o governo Lula. O campo progressista tem que deixar bem claro nas eleições de 2026 o seu antagonismo com a direita neoliberal, para isso é imperioso apresentar e demonstrar que o projeto da esquerda e a sua aliança política são aqueles que, verdadeiramente, representam os interesses da classe trabalhadora e do povo brasileiro.

Por fim, e frente a esse cenário sombrio, entendemos que o mundo não pode “pagar para ver”. A reedição da Doutrina Monroe representa uma intimidação real por parte dos EUA, cujo objetivo central é dar curso ao seu projeto de tutela e dominação. Assim, é necessário ficar atento aos movimentos do governo Trump. Para nós, latino-americanos, torna-se fundamental fortalecer a unidade regional e a articulação do Sul Global frente às claras ameaças dos imperialistas do Norte à nossa soberania. Ou nos unimos para enfrentar as ameaças do Norte, ou seremos condenados a repetir um passado de violência e submissão. O momento exige consciência, firmeza e ação coletiva. A história da América Latina não permite neutralidade!

domingo, 2 de novembro de 2025

A PENA DE MORTE FOI ESTABELECIDA PELO GOVERNO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

 


Por: Odilon de Mattos Filho
As favelas surgiram no Brasil na transição do século XIX para o XX. O termo nasceu após a Guerra de Canudos, onde havia o Morro da Favela, batizado em referência a uma planta da região, a faveleira. Quando o conflito terminou, muitos soldados retornaram ao Rio de Janeiro. Sem condições de moradia e convivendo com os negros recém-“libertos” pela Lei Áurea — igualmente abandonados pelo Estado —, começaram a erguer barracos nas encostas e periferias da cidade. Assim nasceram as primeiras favelas brasileiras.

Segundo estimativa do IBGE (2019), havia no Brasil 5,1 milhões de domicílios em 13 mil aglomerados subnormais, distribuídos por 734 municípios, em todos os estados do país, incluindo o Distrito Federal. Esses números revelam a dimensão de uma realidade historicamente negligenciada pelo poder público.

Desde suas formações, as favelas foram abandonadas pelos governos. Essa ausência permitiu que o crime organizado ocupasse o espaço do Estado, oferecendo o que este negava: alguma forma de poder e pertencimento. Mas é fundamental lembrar: a imensa maioria dos moradores das favelas não é criminosa. São trabalhadores — formais ou informais — que lutam todos os dias por sobrevivência e dignidade.

No imaginário coletivo, a palavra favela remete quase sempre ao Rio de Janeiro. Não é à toa que mais de dois milhões de pessoas vivem nas comunidades cariocas — população que, isoladamente, seria o sétimo maior município do Brasil. E talvez o que mais sofre com uma violência crônica, patrocinada tanto pelo crime quanto, paradoxalmente, pelo próprio Estado.

No dia 28 de outubro de 2025, comunidades da “Cidade Maravilhosa” foi palco de mais uma tragédia. Desta vez, a operação ocorreu nos complexos da Penha e do Alemão, resultando em 121 mortes — entre supostos integrantes do Comando Vermelho, quatro policiais e civis inocentes. Foi a maior chacina da história do Rio de Janeiro.. Mas o dado que chama atenção é o fato de que mais de cinquenta vítimas fatais não eram procurados pela Justiça ou não tinham registros que indicassem envolvimento com crimes. Alias, sobre essas vitimas sem antecedentes criminais o governador disse que são "danos colaterais", só faltou usar o bordão do personagem Chaves:  "foi sem querer querendo!". Fala mais cruel e desumana impossível!

A propósito, essa chacina se somada a de Jacarezinho em 2021, com 27 execuções, o número de mortos chega a 148, todas sob o comando do governador Cláudio Castro. 

Neste contexto, segundo o “Instituto Fogo Cruzado”, nos 54 meses de governo de Cláudio Castro, foram 753 vítimas em 150 chacinas. No governo anterior de Wilson Witzel, proporcionalmente o mais letal, foram 120 chacinas com 457 vítimas em 28 meses. Estes números, afora a fundamental questão humanitária, mostra o ineficiente modus operandi da política de segurança dos governos da extrema-direita: a política da morte como espetáculo. Lembrando, ainda, que os governadores e parlamentares da extrema-direita são contra a PEC da Segurança Pública. Talvez isso explica essa política de extermínio.

A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ), com lucidez e coragem, denunciou: “Essa é uma operação que remonta o que tem sido a prática no Estado do Rio de Janeiro, mas esse governo, em especial, tem um contorno que não podemos negar: o das grandes operações com uma lógica de espetáculo. Há uma tentativa deliberada de dar visibilidade à barbárie cometida pelo próprio Estado... A lógica do sucesso nas operações policiais é a quantidade de corpos deixados no chão, e não a prevenção ou o respeito à Constituição.1

O governador Cláudio Castro e outros líderes da extrema-direita buscando politizar e jutificar a matança. articulam a mesma narrativa de Trump para classificar facções criminosas como “narco-terroristas”. Essa retórica serve para legitimar práticas autoritárias e abrir caminho a possíveis intervenções internacionais, especialmente sob influência dos Estados Unidos.

Essa estratégia também visa colocar a segurança pública no centro do debate eleitoral de 2026. Como afirmou o professor João Cezar de Castro Rocha, da UERJ, vivemos a “bukelização” da segurança pública — referência ao ditador de El Salvador, Nayib Bukele, que construiu sua popularidade sobre o discurso de ódio, o encarceramento em massa e o desprezo pelos direitos humanos.

Segundo o Datafolha, 57% dos moradores do Rio de Janeiro aprovam a operação policial que resultou na chacina. Esse dado, estarrecedor, confirma a tese de João Cezar: a violência de Estado se converteu em política pública com apoio popular.

A deputada Renata Souza observa com precisão que “...a aceitação social das operações letais é parte de uma estrutura que elege governadores e parlamentares. Há um julgamento social de que o inimigo está na favela — e isso legitima a barbárie.2

Por sua vez, o mestre Pierre Monteiro traduz o fenômeno com rara clareza: “O preto, o pobre e o favelado são o fetiche do branco dominador. Numa relação metonímica, a parte insuportável do gozo humano é comprimida na diferença racial e sexual que se busca eliminar. Esses algozes, reprimidos e negacionistas de seu próprio desejo, extravasam de forma violenta e inaceitável sobre aqueles que lhes negam legitimidade. A favela, desde sempre, e cada vez mais, desafia a supremacia branca, homofóbica e autoritária. E eles odeiam isso. A marca de nosso racismo e a razão da chacina é o ódio à existência do outro.3

A chacina, portanto, é a expressão do racismo estrutural. É o ódio institucionalizado contra os corpos negros, pobres e periféricos. E longe de qualquer defesa ao crime, é preciso dizer com clareza: a política de segurança pública do Rio de Janeiro e de outros Estados, baseada na truculência e no uso desproporcional da força, fracassou. Os dados comprovam que o aumento das operações letais não reduziu o poder do crime organizado nas comunidades periféricas.. 

Ademais, as autoridades não podem naturalizar as chacinas e apenas contar os corpos tomados ao chão como se contasse garrafinhas, isso é coisa da imprensa sadista, trata-se de muitas vidas humanas, de histórias de sofrimentos, de resiliência e de luta pela sobrevivência. São muitos os inocentes que perderam suas vidas nesses bárbaros confrontos.

Mas, realmente a situação das facções criminosas no Brasil é muito grave: mais de um quarto do território urbano do país é controlado por essas facções. Mas diferente do que já é aplicado para tentar debelar essa estrutura criminosa, a única saída real é o Estado ocupar as favelas com políticas públicas — saúde, educação, saneamento, cultura, lazer, acesso digital e infraestrutura digna. É preciso transformar as comunidades em bairros com CEP, direitos e cidadania. A segurança pública deve se basear em inteligência, integração e prevenção, não em extermínio.

Diante de mais uma barbárie cometida pelas mãos do Estado do Rio de Janeiro, restam perguntas inevitáveis: Por que não se realizam operações deste porte na Zona Sul, onde vivem e circulam os grandes financiadores do tráfico? Por que não se investiga o sistema financeiro que lava o dinheiro do crime? Como as armas e drogas entram nas favelas?  Quem vai investigar e punir este crime de guerra sem guerra, a Corregedoria do próprio governador que deu aval à operação ? 

Entendo que a melhor decisão para elucidar essa chacina de maneira clara, definitiva e independente é a federalização das investigações, o caso da saudosa Marille Frnaco corrobora tal afirmativa. Com a palavra o governo federal e o Sistema Judiciário brasileiro!












1Fonte:https://www.geledes.org.br/uma-chacina-permanente/
2 Fonte: https://www.geledes.org.br/jacarezinho-por-antonia-quintao/
3Fonte: https://www.geledes.org.br/jacarezinho-por-antonia-quintao/

domingo, 12 de outubro de 2025

ESTARÁ A FUNDAÇÃO NOBEL TUTELADA PELO IMPERIALISMO?


Por: Odilon de Mattos Filho

O Prêmio Nobel, símbolo máximo da honra e da paz mundial, parece ter perdido seu princípio moral e sua independência ética. Vejamos!

Sabe-se que o Prêmio Nobel é uma das mais importantes premiações mundiais destinadas ao reconhecimento de pessoas que desenvolvem trabalhos, ações e pesquisas em benefício da humanidade. O título é entregue anualmente nas cidades de Estocolmo e Oslo.O criador dessa premiação foi o sueco Alfred Nobel, químico que trabalhou com o pai, Immanuel Nobel, na cidade de São Petersburgo. Seu pai era proprietário de uma fábrica de ferramentas e explosivos, e foi nela que Alfred teve contato com o composto químico chamado nitroglicerina, principal material de sua mais célebre invenção: a dinamite. Essa descoberta o tornou milionário.

Alfred Nobel faleceu em 1895. Antes de morrer, deixou um testamento destinando 94% de sua fortuna à criação do Prêmio Nobel. A Fundação Nobel foi instituída em 1900, e a primeira edição da premiação ocorreu em 1901. O próprio Nobel determinou a formação de um Conselho responsável por selecionar os indicados e definir os laureados.

Desde a sua criação, o Prêmio Nobel raramente foi alvo de críticas contundentes ou de contestação quanto aos seus premiados. No entanto, cento e vinte e quatro anos após a primeira premiação, o Prêmio Nobel da Paz de 2025 provocou forte polêmica e grande decepção na comunidade acadêmica e política internacional.

O Comitê Norueguês do Nobel deliberou que o Nobel da Paz de 2025 fosse concedido à venezuelana María Corina Machado. Engenheira e ex-deputada, María Corina é uma ferrenha opositora do governo de Nicolás Maduro e uma das principais lideranças que defenderam abertamente um golpe de Estado em seu país. Essa “cidadã” integra o eixo internacional da extrema-direita, sendo conhecida apoiadora do genocida Benjamin Netanyahu e colaboradora do partido espanhol Vox, de orientação ultradireitista. Corina é uma reconhecida golpista e é parte de uma aliança global entre o fascismo, o sionismo e o neoliberalismo.

A escritora e analista Michelle Ellner, em artigo publicado no importante site CodePink, foi uma das vozes que criticaram duramente a concessão do Nobel da Paz de 2025.

Segundo ela: “A escolha de María Corina representa a perda total do significado da palavra paz, pois premiar uma figura que defende intervenções estrangeiras, sanções econômicas e políticas de exclusão social é um insulto aos povos que sofrem as consequências dessas decisões travestidas de diplomacia. Não há nada de pacífico em suas ideias ou ações1”.

E continua Michelle Ellner: “Corina é o rosto sorridente da máquina de mudança de regime de Washington — uma política imperialista travestida de promoção da democracia. É a porta-voz polida das sanções, da privatização e da intervenção estrangeira, todas apresentadas sob o falso manto da liberdade.”

Não restam dúvidas de que essa premiação faz parte de uma estratégia dos Estados Unidos para gerar instabilidade política na Venezuela. Não á toa, que há relatos fidedignos de que María Corina foi indicada ao Nobel da Paz pelo então senador Marco Rubio, hoje Secretário de Estado e homem de total confiança de Donald Trump, o que reforça a tese de que essa premiação é mais um instrumento para se criar instabilidade, coação política e a ampliar o risco de uma intervenção militar dos impherialistas do norte na Venezuela.

Nessa mesma linha, o ex-presidente do PT, José Genoíno afirmou:,“...esse prêmio está vinculado à pretensão do imperialismo americano de recuperar sua influência na América Latina. Não há neutralidade nisso; tudo atende a um projeto político e geopolítico. Estamos vendo uma América Latina sendo colocada como território de disputa, onde os interesses das grandes potências se sobrepõem à autodeterminação dos povos2”.

Por fim e nesse mesmo diapasão, vale citar as palavras do Nobel da Paz de 1980, o Argentino, Adolfo Pérez Esquiavel sobre o prêmio concedido a Maria Corina: "Corina, pergunto-lhe: por que você pediu aos Estados Unidos que invadissem a Venezuela? Quando recebeu o anúncio de que havia recebido o Prêmio Nobel da Paz, você o dedicou a Trump, agressor de seu país. A pior forma de violência é a mentira3”. E em carta enderaçada a Maria Corina Esquiavel escrveu: “Preocupa-me que você não tenha dedicado o Prêmio Nobel ao seu povo, mas sim ao agressor da Venezuela. Acho, Corina, que você precisa analisar e entender sua posição: se você é apenas mais uma engrenagem no sistema colonial dos Estados Unidos, nunca poderá ser para o bem do seu povo4”

E realmente assiste razão ao grande Esquiavel, pois, é sabido que María Corina defende, publicamente, o envio de navios militares dos EUA em direção à Venezuela, além de apoiar a criminosa estratégia de abater barcos e matar civis que o governo estadunidense — sem qualquer prova — considera pertencentes a cartéis de drogas, mas que na verdade, não passa de álibi para instigar uma reação bélica do governo Venezuelano e assim criar as condições para uma invasão militar e a deposição do presidente Nicolás Maduro.

Aliás, as ilegais interveções do presidente estadunidense na Venezuela estão a todo vapor. Segundo o jornal “The New York Times”, a CIA foi autorizada pelo presidente Trump para conduzir operações letais, de maneira unilateral ou junto com os militares, contra Nicolás Maduro e o governo. Aliás, este fato é  extremamente inusitado: avisar publicamente uma ação de espionagem. Só mesmo um fanfarrão como Drump! 

Neste contexto e por mais paradoxal que possa pareçer, Maria Corina “Nobel da Paz” aprova tais ações e vai mais longe: afirma que Trump “com certeza merece um Nobel da Paz pelos esforços que tem realizado, com eventos incríveis que estão ocorrendo atualmente no mundo5”. A propósito, cabe para Maria Corina a célebre frase do grande Libertador Revolucioário, Simón Bolívar: "Maldito é o soldado que aponta sua arma contra seu povo".

Portanto, ao conceder o Prêmio Nobel da Paz a María Corina Machado, o Comitê do Nobel legitima a posição de sua agraciada, que publicamente, apoia o atentado do governo estadunidense contra a autodeterminação e a soberania do povo venezuelano — e como sempre, com a cumplicidade dos meios de comunicação que silenciam e se associam às falas de Corina e às falsas justificativas de Washington para uma nova intervenção militar na Venezuela, cujo objetivo está longe de ser o combate aos cartéis do narcotráfico e tampouco a defesa da democracia, o foco principal de Donald Trump e isso até o homem da caverna sabe, são os 300 bilhões de barris de petróleo que fazem parte da maior reserva de óleo natural do mundo que está em solo venezuelano. Esse sim é o único objetivo do governo Trump.

Diante de tudo e tendo o genocídio do povo palestino como um triste exempo, não cabe mais a passividade das forças progressistas do mundo. É imperiosa a unidade para o enfrentamento, pois estamos diante de mais uma possível atrocidade. Urge a mobilização em defesa da soberania venezuelana contra essa abjeta, ilegal e covarde ameaça de invasão. O governo brasileiro, por representar o maior país da América do Sul, tem o dever histórico de liderar essa mobilização contra a barbárie perpetrada pelos EUA antes que se alastre por outros países da Amérca do Sul.

Fica, portanto, claro que a “honraria” concedida a María Corina Machado não passa de mais uma estratégia dos Estados Unidos contra a Venezuela — e constitui mais uma prova da deformidade da atual desordem internacional, na qual organismos globais estão sendo tutelados e aparelhados pelos interesses das potências ocidentais, em especial dos Estados Unidos da América.
































1Fonte: https://www.brasil247.com/entrevistas/o-nobel-da-paz-foi-dado-a-uma-defensora-de-golpe-de-estado-diz-genoino
3Fonte:https://vermelho.org.br/2025/10/13/perez-esquivel-confronta-nobel-de-maria-corina-machado/
4Fonte:https://vermelho.org.br/2025/10/13/perez-esquivel-confronta-nobel-de-maria-corina-machado/
5Fonte : https://cbn.globo.com/mundo/noticia/2025/10/16/nobel-da-paz-pede-ajuda-a-trump-para-tirar-maduro-do-poder-na-venezuela.ghtml

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

ENFIM, MILITARES GOLPISTAS SÃO CONDENADOS


Por: Odilon de Mattos Filho
Segundo alguns historiadores, entre tentativas e consumação, o Brasil passou por catorze golpes de Estado desde a sua independência. A esse número, soma-se a deposição da presidenta Dilma Rousseff, que claramente se tratou de um golpe de Estado perpetrado pela elite brasileira por meio do Congresso Nacional — ainda que essa mesma elite não reconheça o episódio como uma ruptura institucional.

O curioso, ou melhor, a vergonha desses períodos sombrios é o fato de que, na maioria dos golpes ou tentativas, os militares das três Forças estiveram envolvidos. O mais chocante é que, até o dia 12 de setembro de 2025, nenhum militar havia sido punido por atentar contra o Estado Democrático de Direito. Talvez essa impunidade explique a recorrente intrepidez dos ocupantes das casernas.

Não há como negar a transcendência histórica do julgamento da tentativa de golpe iniciada em 2022 e culminada no fatídico dia 8 de janeiro de 2023. Encerrado no dia 12 de setembro de 2025 no STF, esse julgamento colocou, pela primeira vez, no banco dos réus o núcleo central da conspiração golpista e todos foram devidamente condenados: um ex-presidente da República (capitão da reserva), três generais de quatro estrelas e um almirante de esquadra, ex-comandante da Marinha.

Certamente, a maioria dos brasileiros e a comunidade internacional acompanharam todo o processo, observando a lisura e legalidade do julgamento. Houve farta produção de provas — paradoxalmente, muitas delas produzidas pelos próprios réus — devidamente juntadas ao inquérito da Polícia Federal e que embasaram a denúncia do Procurador-Geral da República.

É evidente que os defensores dos golpistas não compartilham dessa visão. Um exemplo é o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que abandonou o mandato e buscou abrigo nos Estados Unidos. O governo Trump, sensível ao discurso antipatriótico do deputado, tentou interferir no julgamento por meio de pressões comerciais e chantagens dirigidas a ministros da Suprema Corte. Mas nenhuma dessas ações produziram efeitos concretos: simplesmente os ministros ignoraram os ultimatos dos imperialistas do norte e conduziram o julgamento de forma transparente, legal, soberana e independente.

Conforme dispõe o Regimento Interno do STF, o julgamento coube à Primeira Turma, composta por cinco ministros. O relator, Alexandre de Moraes, foi o primeiro a votar, seguido por Flávio Dino, Luiz Fux, Cármen Lúcia e, por fim, Cristiano Zanin, presidente da Turma.

Houve apenas um voto divergente, o do ministro Luiz Fux. Para espanto da comunidade jurídica, Fux levou mais de 12 horas para ler seu voto, que se mostrou contraditório com posições anteriores e soou mais como a peça de um advogado de defesa. Enquanto os réus não negaram a tentativa de golpe, apenas buscaram se desvincular dela, Fux foi além: sustentou a tese de que não houve golpe e questionou a prerrogativa de foro.

A propósito, sobre o voto do ministro, Fux, o jurista Lenio Streck afirmou: “A democracia brasileira continua sob forte ataque, tanto interno quanto externo, e o Supremo enfrenta um momento inédito de tensão. Parte da comunidade jurídica considera a decisão de Fux um erro grave, pois não altera o resultado do julgamento, mas expõe o colegiado a ataques da extrema direita. (...) Nós não estamos conseguindo compreender que escapamos de uma tentativa de golpe de Estado e não de um furto de supermercado. Quando é que nós vamos entender isso?1

Na mesma linha, o professor e constitucionalista Pedro Estevam Serrano destacou: “Com todo o respeito e admiração que Fux merece como grande jurista que é, a realidade é que, neste momento, ele foi extremamente contraditório. Foi um voto com baixo grau de fundamentação técnica e cheio de contradições. Não só internas, mas também em relação a decisões anteriores do próprio ministro.2

Já o jurista Fábio Tofic pontuou: “A divergência é saudável, pois enriquece o julgamento. Mas, quanto à prerrogativa de foro, vale lembrar que o Supremo tem a prerrogativa de errar por último. A jurisprudência atual é clara, e Fux destoou não só do colegiado, mas de si mesmo em decisões anteriores.3”.

Por fim, o ministro Gilmar Mendes em pouquíssimas palavras mostra a desconexão e desmonta parte do voto do ministro Fux. Diz o Decano: "O voto do ministro Fux está cheio de incoerência. Se não houve golpe, não deveria ter havido condenação de outros nomes. Condenar o tenente-coronel Mauro Cid e o general Braga Netto parece uma contradição nos próprios termos4".

Agora, tudo indica que virá um novo embate no STF, desta vez sobre a constitucionalidade do Projeto de Anistia em tramitação na Câmara dos Deputados, com reais chances de aprovação. Aqui vale alertar que a anistia não serve para pacificar a sociedade, ao contrário, essa impunidade enfraquece a democracia e fortalece e encoraja golpistas para novas aventuras de rupturas institucionais. Mas, não satifeitos com esse Projeto, a direita e a extrema-direita se articulam para aprovar a PEC da "Bandidagem" e o mais inusitado foi o fato do líder do governo, deputado Odair Cunha e mais 9 deputados do PT terem votado favoráveis ao Projeto.  Essa PEC nada mais é do que um instrumento que dificulta que parlamentares sejam investigados pelo STF sem a aprovação do Plenária da Câmara dos Deputados. 

Espermaos que o Senado Federal rejeite essa excrescência!

Evidente que tudo isso faz parte de um arcabouço de impunidade para proteger parlamentares crimosos e a tentativa de livrar da condenação essa organização crimonoso formada por militares e civis já punidos por atentarem contra a democracia.

De tudo isso e mesmo ciente da importante vitória da democracia - neste caso com um atraso de 21 anos - o momento exige cautela e firmeza, não se pode baixar a guarda, é imperioso que as massas ocupem as ruas para frear a sanha golpista do Congresso, defender a democracia, exigir a prisão dos conenados pelo STF e repudiar qualquer tentativa de anistia. Não podemos perder de vista a célebre e sempre atual frase do dramaturgo alemão Bertolt Brecht: “A cadela do fascismo está sempre no cio.”








1Fonte: https://www.brasil247.com/entrevistas/quando-entenderao-que-escapamos-de-um-golpe-nao-de-um-furto-de-supermercado-questiona-lenio-streck
2Fonte:https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2025-09/fux-foi-contraditorio-e-seletivo-nas-provas-do-golpe-dizem-juristas
3Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/juristas-discutem-o-peso-da-divergencia-de-fux-na-condenacao-de-bolsonaro/
4-Fonte:https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/09/15/gilmar-aponta-incoerencia-em-voto-de-fux-afirma-confiar-que-congresso-barre-anistia.ghtml

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

O BRASIL É SOBERANO E NÃO COLÔNIA DOS EUA


Diante do descalabro da taxação comercial imposta pelo presidente dos EUA, Donald Trump, a vários países — especialmente ao Brasil —, lembrei-me de uma das maiores obras sobre a história da América Latina: As Veias Abertas da América Latina, do grande escritor uruguaio Eduardo Galeano e comcei a reler essa importante obra que, contextualizando, nos ajuda a entender o atual momento político.

O livro, revela com riqueza de detalhes como os colonizadores e imperialistas dominaram e saquearam as riquezas dos povos latino-americanos, e apoiaram golpes e instalaram ditaduras sangrentas como foi feito pelos EUA para moldar a política de toda a região.

Logo no início, Galeano sintetiza a essência da Teoria da Dependência: “A divisão internacional do trabalho consiste em que alguns países se especializam em ganhar e outros em perder. Nossa comarca no mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os tempos remotos.”

E prossegue: “Segundo a voz de quem manda, os países do sul do mundo devem acreditar na liberdade de comércio (embora não exista), honrar a dívida (embora seja desonrosa), atrair investimentos (embora sejam indignos) e entrar no mundo (embora pela porta de serviço).”

Com o fim da Guerra Fria, os EUA consolidaram uma hegemonia que os fez se enxergar como “tutores do mundo”, acima do bem e do mal. Para sustentar esse status, participaram e iniciaram guerras, promoveram golpes e patrocinaram barbáries mundo afora, sempre em defesa de seus interesses — muitas vezes com o silêncio cúmplice de organismos internacionais e até de governos aliados.

Vale lembrar, que o saque imperialista começou com o ouro e a prata; passou pelo açúcar, tabaco, guano, salitre, cobre, estanho, borracha, cacau, banana, café e petróleo; e hoje mira as chamadas “terras raras”.

A nova tarifa de 50% imposta por Trump ao Brasil é mais que uma medida econômica: é uma tentativa de intervir na política nacional e atacar nossa soberania. Por trás, está o interesse em se apoderar das reservas brasileiras de terras raras — especialmente nas regiões Centro-Oeste e Norte —, essenciais para baterias, armas de precisão, satélites e chips. Aliás, o Brasil foi agraciado geográfica e geologicamente, pois o país possui as maiores áreas agricultáveis do mundo, uma potência em água doce, vastas reservas de petróleo, as terras raras, etc. e tudo isso instiga a cobiça de outras Nações, como, por exemplo, o império decadente dos EUA, como estamos assistindo nesse momento. Aqui não se pode esquecer que até o PIX está sendo alvo dos imperialistas do norte, que vê nessa popular ferramenta financeira uma ameaça aos cartões de créditos cuja bandeiras são estadunidense. 

Porém, o governo dos EUA, acostumados a tutelar parte do mundo e "negociar" com governos submissos, desta feita, quebrou a cara, pois, encontrou no Brasil uma forte resistência do governo Lula à pressão de Trump para tentar espoliar essas riquezas e assim, reduzir sua dependência da China, transformando o Brasil em ativo geoestratégico.

A propósito, o momento remete ao governo João Goulart (1961-1964) quando interesses minerários estrangeiros também se chocaram com um projeto nacionalista. Outro  período similar ao de agora, foi de 1951 a 1954, quando o presidente Getúlio Vargas criou a Petrobras e implementou políticas nacionalistas, despertando a sanha dos imperialistas do norte, que pouco tempo depois colaboraram com o golpe militar de 1964. Aliás, qualquer semelhança não é mera coincidência como bem pontua o destemido jornalista, Xico Sá ao relembrar a obra "Aos Trancos e Barrancos" do grande mestre Darcy Ribeiro: “Em 1962, o presidente João Goulart cancela o registro das jazidas de minério de ferro do Quadrilátero Ferrífero, concedidas ilegalmente à Hanna Corporation. O Brasil recupera, assim, a massa principal dos seus minérios de ferro. Com essa decisão, empresas dos EUA se juntaram a militares e empresários brasileiros no financiamento do golpe de 1964. Logo que assumiu, Castelo Branco devolveu as minas à multinacional norte-americana.1”.

É exatamente isso que Trump desejava com a vitória do antipatriota Jair Bolsonaro e sua camarilha, o Brasil voltar a ser um país periférico e submisso. Felizmente, quem venceu foi Lula e a democracia e neste contexto é preciso reconhecer a postura firme e soberana do presidente Lula que saiu da defensiva e retomou o diálogo com sua base, defendendo de forma intransigente os interesses do Brasil. 

Afora a pressão comercial, vale destacar outro ponto: Trump, induzido pelas mentiras de Eduardo Bolsonaro, faz o confronto ideológico para tentar proteger Jair Bolsonaro da condenação que certamente virá, e para isso, busca, também, intervir, pressionar e atacar o STF na pessoa do ministro, Alexandre de Moares aplicando-lhe, sem fundamento jurídico e factual, a Lei Magnitsky, conhecida como “morte financeira” do sancionado. Mas isso não é tudo: Trump começou, também, avançar contra autoridades brasileiras e seus familiares com cassações de vistos de entrada nos EUA e outras medidas restritivas. Mas não sejamos ingênuos, com a proximidade do julgamento de Bolsonaro outras decisões poderão ser aplicadas ao Brasil e as autoridades brasileiras, como forma de presssionar os ministros da Suprema Corte no julgamento de Jair Bolsonaro e sua "facção" golpista.

Trocando em miúdos, o Brasil nunca viveu na sua história, tamanho ataque à sua soberania. Espera-se que os ministros do STF não se intimidem e façam o devido julgamento dos golpistas, e por outro lado, aguardamos que o governo Lula suporte as pressões externas e não se curve às chantagens do imperialismo estadunidense. Nossa soberania exige que se respeite as nossas instituições e as riquezas naturais do país que pertencem única e exclusivamente ao povo brasileiro. 

Nesse contexto, vale lembrar, que o Brasil possui um instrumento valioso para se defender desses ataques, o país integra o BRICS, bloco que detém quase 40% do PIB mundial, o que lhe garante retaguarda econômica, política e estratégica, ou seja, os imperialistas do norte não estão emparedando ou hostilizando uma republiqueta, o buraco é mais embaixo, o Brasil é uma Nação forte, democrática, independente e soberana.  

E para encerrar, recorro a um trecho do poema "Rio Doce", de Carlos Drummond de Andrade: “Quantas toneladas exportamos? Quantas lágrimas disfarçamos sem berros?”

Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça!








1Fonte: https://iclnoticias.com.br/cobica-mineral-liga-tarifaco-de-trump-a-golpe-de-1964/

sexta-feira, 11 de julho de 2025

A PALAVRA DE ORDEM É VIRAR À ESQUERDA

 


Por: Odilon de Mattos Filho

Sabe-se que, apesar da miopia de algumas lideranças do campo progressista, a Frente Ampla articulada por Lula e pelo Partido dos Trabalhadores foi uma estratégia eleitoral bem-sucedida em 2022. Diante da ameaça bolsonarista, era necessário construir uma aliança tática para derrotar o fascismo nas urnas. Mas o custo político dessa composição está se tornando insustentável para o governo e para a esquerda brasileira.

Hoje, assistimos a um Congresso Nacional dominado por forças conservadoras, neoliberais e bolsonaristas que atuam como linha auxiliar da extrema-direita. O governo é diariamente chantageado, travado e sabotado. E o principal instrumento dessa chantagem são as chamadas emendas PIX e o legado criminoso do orçamento secreto, criados no desgoverno Bolsonaro e perpetuados por um Congresso fisiológico que deseja implantar um parlamentarismo orçamentário de fato — sem responsabilidade, sem transparência e sem voto popular.

Segundo dados oficiais, o valores dessas emendas ultrapassam a casa dos R$ 50 bilhões de reais. São recursos usados não para o bem público, mas para irrigar bases eleitorais, comprar apoios e alimentar esquemas. A transparência passa longe. A moralidade administrativa, exigida pelo artigo 37 da Constituição Federal, é rasgada diariamente nos bastidores do Congresso.

Diante desse assalto ao orçamento, o caso foi parar no STF, sob relatoria do ministro Flávio Dino. E a resposta dos presidentes da Câmara, Hugo Mota e do Senado, Davi Alcolumbre — ambos bolsonaristas de carteirinha — foi endurecer ainda mais esse jogo sujo, lembrando, porém, que os dois presidentes foram eleitos com apoio do governo e hoje lideram o cerco ao Executivo

A derrubada do decreto que aumentava a alíquota do IOF — o que garantiria R$ 30 bilhões em arrecadação até 2026 — é emblemática. Foi uma retaliação direta à atuação do Judiciário. E o mais grave: o Congresso também sentou sobre projetos centrais do governo, como a isenção do IRPF para quem ganha até R$ 7 mil e a taxação dos super-ricos, pilares da justiça tributária..

Mas o tiro saiu pela culatra. O governo e os movimentos sociais reagiram com firmeza, inundando as redes sociais com denúncias e revelando quem são os verdadeiros defensores dos super-ricos e das elites rentistas. A campanha ganhou as ruas, com manifestações em diversos estados, deixando claro que o povo não aceita ser governado por chantagistas e corruptos.

Em meio a isso, veio o “presente” dos imperialistas do Norte: os Estados Unidos impuseram taxações abusivas contra as exportações brasileiras, e Donald Trump — em campanha — atacou o Judiciário brasileiro e saiu em defesa de Bolsonaro. Foi um ataque frontal à nossa soberania.

Mais uma vez, a extrema-direita deu munição ao campo progressista. O povo viu quem está ao lado do Brasil e quem atua como serviçal de interesses estrangeiros.

Em menos de duas semanas, o governo Lula — que enfrentava dificuldades em sua popularidade — teve em mãos as armas políticas e simbólicas para expor os inimigos da democracia. A narrativa golpista foi desmontada. A máscara dos "patriotas" caiu.

Diante desse cenário, torna-se urgente o enfrentamento ideológico. O campo progressista e o governo Lula precisam dar nome aos bois, apontar os responsáveis pelo sequestro do orçamento e convocar as massas para defender aquilo que os elegeu: os programas sociais, a valorização do trabalho, a justiça fiscal, a soberania nacional, a rvogação das reformas trabalhista e previdenciária e o fim da escala 6X1. 

É hora de devolver ao povo o protagonismo da luta política. É ele — e só ele — quem tem legitimidade para garantir a governabilidade. Foi o povo que deu a vitória a Lula. Foi o povo que referendou o projeto progressista e popular apresentado nas eleições.

Além disso, o Brasil — e o mundo — enfrentam uma crise sistêmica. O modelo capitalista e imperialista revela suas contradições e suas debilidades marcadas por um processo de acumulação de capital e com uma brutal concentração de renda, exclusão social e esgotamento ambiental. Estamos diante de um colapso civilizatório — e o campo progressista precisa reagir para estar à altura do desafio.

Portanto, não há mais espaço para recuo. O Congresso atual, capturado por interesses fisiológicos, pode a qualquer momento enterrar o futuro do Brasil. Por isso, o governo e o PT devem virar à esquerda e se colocar na defesa dos interesses da classe trabalhadora. Com coragem. Com o povo. Com a firmeza de quem sabe que sem luta, não há mudança.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

A PÁTRIA GRANDE PERDE UM DOS SEUS MAIORES LÍDERES, PEPE MUJ́ÍÍCA


 Por: Odilon de Mattos Filho

José Alberto Mujica Cordano, mais conhecido como Pepe Mujica, nasceu em Montevidéu no dia 20 de maio de 1935. Filho de agricultores, Mujica recebeu educação primária e secundária na escola nº 150 de Paso de la Arena. Após concluir o liceu, matriculou-se no Instituto Alfredo Vásquez Acevedo (IAVA) para cursar Direito, mas não concluiu o curso.

Durante a juventude, embalado e empolgado pela vitoriosa Revolução Cubana e ciente das mazelas que o Uruguai enfrentava, juntou-se a outros camaradas e fundaram o Movimento de Libertação Nacional — Tupamaros, um dos principais grupos guerrilheiros do país.

Em virtude de sua militância, Mujica foi preso quatro vezes e passou catorze anos nas prisões da ditadura uruguaia.

Desde os anos 1970, viveu com sua companheira e também guerrilheira, Lúcia Topolansky, com quem oficializou o casamento em 2005. O casal viveu sempre em um pequeno sítio na zona rural de Montevidéu, de onde tirava o sustento com o trabalho no campo. Uma vida de humildade e simplicidade — um franciscano dos tempos modernos.

Com o retorno à democracia, Mujica foi libertado em 8 de março de 1985, por meio da anistia aos delitos políticos cometidos a partir de 1º de janeiro de 1962.

Logo após a abertura democrática, Mujica criou, junto a outras lideranças do MLN e de partidos de esquerda, o Movimento de Participação Popular (MPP), dentro da Frente Ampla. Já nas eleições de 1994, foi eleito deputado por Montevidéu e, diante de sua atuação parlamentar e política, tornou-se o senador mais votado da história do Uruguai em 1999.

No dia 1º de março de 2005, com a eleição de Tabaré Vázquez pela Frente Ampla, Mujica foi nomeado ministro da Agricultura. Em 25 de outubro de 2009, venceu as eleições presidenciais com cerca de metade dos votos válidos e foi ao segundo turno contra Luis Alberto Lacalle, vencendo com mais de 52% dos votos.

Como presidente, iniciou seu mandato com vigor e atenção total ao povo mais pobre do Uruguai, implantando, aos poucos, políticas antes enterradas nos porões das elites conservadoras. Destacam-se três políticas corajosas e fundamentais para o povo uruguaio: a legalização do aborto, a regulamentação do mercado da maconha e o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Essas medidas colocaram o Uruguai na vanguarda mundial das políticas sociais progressistas.

Mas os avanços não se restringiram apenas nessas pautas de costumes, durante seu mandato, a economia do país cresceu uma média anual de 5,4%, o índice de pobreza caiu, e o desemprego foi mantido em níveis baixos. Além disso, houve crescimento dos programas de transferência de renda, aumento do salário mínimo, além da distribuição de laptops para estudantes e professores e políticas habitacionais para famílias de baixa renda.

Desde sua eleição como deputado, Mujica doava 70% de seus rendimentos à Frente Ampla e a um fundo de construção de moradias populares e mesmo como presidente, continuou vivendo em sua chácara na zona rural.

Pepe Mujica viveu o exemplo que prega e colocou em prática seus ideais e pensamentos de vida, deixando um legado sem precedentes na história do povo uruguaio. O presidente Lula sintetizou bem quem foi Mujica ao dizer: “Mujica não foi apenas um militante de esquerda, deputado, senador ou presidente — foi um exemplo de ser humano com muita dignidade, respeito, solidariedade e coragem. Eu conheço muita gente, mas ninguém se iguala à grandeza da alma do meu amigo Pepe Mujica.”

Foi para a eternidade um dos maiores líderes da “Pátria Grande”, mas seu legado e suas ideias seguirão vivos em nossas lutas, corações e mentes.

Pepe Mujica, presente!


domingo, 27 de abril de 2025

QUAL O FUTURO DA IGREJA CATÓLICA PÓS PAPA FRANCISCO ?


Por: Odilon de Mattos Filho

O Estado do Vaticano foi criado em 1929, pelo “Tratado de Latrão”, um acordo realizado entre o Papa Pio XI e o Presidente fascista da Itália, Benito Mussolini. Após o surgimento desse monastério absolutista, cercado de conspirações, segredos e silêncios quase obsequiosos, começam aparecer também os problemas comuns de um País, sobretudo as disputas políticas, a corrupção, a falta de transparência e os interesses financeiros, tanto, que é célebre a frase do arcebispo Paul Marcinkus, Secretário do Banco do Vaticano em 1971, que disse: “Pode-se viver nesse mundo sem se preocupar com o dinheiro? Não se pode dirigir a Igreja com ave-marias”.

No livro “Vaticano S.A.”, o jornalista Italiano, Gianluigi Nuzzi, demonstra como é sombrio a vida política e administrativa desse pequeno País. Diz o autor:“...O Vaticano desenvolve seus negócios em absoluto sigilo, protegendo a delicada relação entre a teocracia e o dinheiro... As intensas atividades da holding da Santa Sé representa um dos segredos mais bem guardados do mundo....A falta de informações alimenta lendas, mas continua sendo uma das regras dos banqueiros de longa batina, muito mais reservados que de seus esquivos colegas leigos1”.

E foi neste nebuloso contexto político que Pontífice Francisco encontrou a “Igreja de Pedro”, especialmente, o Estado do Vaticano, mas se isso não bastasse, havia pela frente muitas e ncessárias “Reformas”, notadamente, com relação aos dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana.

Diante deste cenário cercado de mistério, dogmas retrógrados, corrupção e intrigas, imaginávamos à época, que com o Papa Francisco, um Pastor progressista, humano, generoso e corajoso seria possível realizar as mudanças e o reencontro dessa milenar instituição com os anseios de um povo muita à frente dessa Igreja ultrapassada e estagnada  no tempo. Poderia ser a oportunidade de se deflagar uma Nova Primavera e uma releitura do Concílio Vaticano II e mesmo diante de todos esses desafios, somos de opinião que houve avanços consideráveis no Papado do Pontífice de Francisco.

A propósito, vale destacar as sábias palavras do brilhante Teólogo, Leonardo Boff sobre a indicação do Cardeal Jorge Mario Bergoglio: “...Este é o Papa de que a Igreja precisava. Isto fica claro na escolha do seu nome: trata-se de um jesuíta com alma franciscana. O nome Francisco [é por si só uma encíclica, como bem assinala Dom Cláudio Hummes]. O novo Papa nasce com a inspiração franciscana de simplicidade, ética, solidariedade com os pobres, amor à natureza e liberdade de criação...O centro não é a Igreja, mas a humanidade. Certamente não será um Papa doutrinador, mas um Pastor... Importa que o Papa Francisco seja um João XXIII dos novos tempos, um “Papa buono”, como já o mostrou. Só assim poderá resgatar a credibilidade perdida e ser um luzeiro de espiritualidade e de esperança para todos. O Papa Francisco vem de uma experiência pastoral, não é um espelho de Roma, ele tem autonomia, tem capacidade de falar para o centro do poder da Igreja. O Papa Frnacisco não é apenas um nome, mas um Projeto de Igreja2”.

E realmente com o Papa Francisco a “Igreja de Pedro” passou a ter uma abordagem pastoral mais acolhedora, com um conceito de sinodalidade e comprometida com o Povo Pobre do nosso Planeta, trazendo também para o centro dos debates temas sensíveis que estavam escondidos, a séculos, nos subterrâneos do Vaticano, como, por exemplo, as questões ambientais, moralidade sexual e conjugal, questões econômicas globais, crise migratória e até uma contundente denúncia sobre o sistema financeiro/capitalista.

No contexto geopolítico “a Igreja do Papa Francisco entendeu os eventos globais marcados pela ascensão da extrema direita, a ascensão das igrejas evangélicas, o declínio da Europa e o crescente multilateralismo. Nesse contexto, o papa Francisco expandiu a presença da Igreja Católica no Sul Global com novos cardeais. Ele também negociou com a China e promoveu o diálogo com a Igreja Ortodoxa Russa e outras religiões. Entre seus marcos estão sua mediação entre Cuba e os Estados Unidos e seu reconhecimento do Estado palestino3".

Com a morte do papa Francisco uma pergunta peregrina pelas mentes dos católicos e até dos não católicos: quais serão os rumos e o futuro da Igreja pós Papa Francisco? Evidente que a resposta a essa pergunta dependerá da escolha do nome do novo Pontífice que saberemos depois que a fumaça branca sair sobre a Capela Sistina. A Igreja Católica estará diante de dois caminhos: o retrocesso com os setores conservadores ou o avanço com os setores progressista da Igreja.

Sabemos que o Conclave será formado por 80% de Cardeais nomeados pelo Papa Francisco, porém, muitos especialistas entendem que, apesar deste perfil progressista, será difícil combater a maquinaria historicamente conservadora e eurocêntrica que dominou a estrutura clerical e que tantas vezes foi criticada pelo Papa Francisco.

Segundo alguns vaticanólogos, os progressistas que mais se aproxima do legado deixado pelo Papa Francisco, são: Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha, o cardeal filipino Luis Antonio Tagle, cujas origens representam a expansão global da Igreja, o italiano Pietro Parolin, braço direito de Bergoglio, todos estes podem consolidar a mudança em direção ao “Sul Global”.

Pelo lado dos conservadores há um poderoso lobby ultraconservador que busca líderes eclesiásticos que possam defender as pautas de costumes como, por exemplo, a anti-imigrante, anti-LGBT e anti-reforma social progressista, o enfraquecimento das agendas climáticas, a comunhão para divorciados ou bênçãos, etc. Dentre os candidatos que defendem essas pautas pode-se destacar figuras como os Cardeais conservadores, Raymond Leo Burke(EUA), Gerhard Ludwig Müller (Alemanha), Péter Erdő(Hungria) e Fridolin Ambongo(República Democrática do Congo).

Não temos dúvidas de que este Conclave, dado o momento geopolítico com o avanço da extrema-direita mundo afora e o crescimento vertiginoso dos Evangélicos, em especial, das Igrejas Neopentecostais fundamentalistas, será o mais disputado, mais importante e decisivo para o futuro da Igreja Católica, pois, a morte do Papa Francisco não impacta apenas a Igreja, foi uma perda para a humanidade.

O fato é que a Igreja Católica Apostólica Romana está diante de uma decisão que pode definir os seus rumos para os próxmos anos. A escolha de um Papa de linha conservadora pode levar a Igreja para um perigoso retrocesso, enquanto a escolha de um Papa progressista significará a continuidade do legado deixado pelo Papa Francisco no sentido de levar a Igreja para as periferias do mundo promovendo o respeito a diversidade, a tolerância, o acolhimento, a fé, a paz, a ternura, e a fraternidade. 

Que seja um Pontífice com o vigor e a ternura do Papa Francisco e que seja um Papado que possa desencadear a esperança e uma Nova Primavera na Igreja Católica. Paz e Bem!







1Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2025/04/23/sucessao-do-papa-francisco-a-extrema-direita-e-o-sul-global-na-disputa-do-vaticano/
2 Fonte: http://dilmanarede.com.br/ondavermelha/blogs-amigos/boff-fala-do-seu-entusiasmo-com-a-escolha-do-novo-papa
3- Fonte: https://www.brasildefato.com.br/2025/04/23/sucessao-do-papa-francisco-a-extrema-direita-e-o-sul-global-na-disputa-do-vaticano/